terça-feira, 14 de outubro de 2014

UNIVERSÍDADE FEDERAL DE GOIÁS
PÓS – GRADUAÇÃO ESPECIALIZAÇÃO STRITU SENSU
DISCIPLINA: GENERO E REPRESENTAÇÃO
PROF. DR. ALCILENE CAVALCANTE
ALUNO: JOÃO RAFAEL TATICO BORGES

Referência

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade vol. 1: a vontade do saber, Rio de Janeiro. Edições Graal, 1988.


(1ª PARTE) NÓS VITORIANOS


1 – Parece que, por muito tempo teríamos suportado um regime vitoriano e a ele nos sujeitamos ainda hoje.

1.1              – Diz-se que no inicio do século XVII ainda vigorava certa franqueza. As práticas não provocavam o segredo; as palavras eram ditas sem reticências excessivas e, as coisas, sem demasiado disfarce; tinha-se com ilícito uma tolerante familiaridade.

1.2              – Gestos diretos, discursos sem vergonha, transgressões visíveis, anatomias mostradas e facilmente misturadas, crianças astutas vagabundo, sem incômodos nem escândalo, entre os risos dos adultos: os corpos “pavoneavam”.

1.3              – A família conjugal a confisca. E absorve-a, inteiramente, na sociedade da função de reproduzir. Em torno do sexo, se cala. O casal legitimo e procriador, dita a lei.

1.4              – As crianças, por exemplo, sabe-se muito bem não tem sexo: boa razão para interdita-lo, razão para proibi-las de falarem dele, razão para fechar os olhos e tapar os ouvidos onde quer que venham a manifestá-lo, razão para impor um silêncio geral e aplicado.

1.5              – O rendez-vouz e a casa de saúde serão tais lugares de tolerância: a prostituta, o cliente, o rufião, o psiquiatra e sua histérica – estes “outros vitorianos”, diria Stephen Marcus – parece ter feito passar, de maneira sub reptica, o prazer a que não se alude para a ordem das coisas que se contam; as palavras, os gestos, então autorizados em surdina, trocam-se nesses lugares a preço alto.

1.6              – O modo fundamental de ligação entre poder, saber e sexualidade, só se pode liberar a um preço considerável: seria necessário nada menos que uma transgressão das leis, uma suspensão das interdições, uma irrupção da palavra, uma restituição do prazer ao real, e toda uma nova economia dos mecanismos do poder; pois a menor eclosão de verdade é condicionada politicamente.

2- Dessa Forma, denuncia-se o conformismo de Freud, as funções de normatização da psicanalise, tanta timidez por trás dos arrebatamentos de Reich, todos os efeitos de integração assegurados pela “ciência” do sexo ou praticas, pouco mais do que suspeitas, da sexologia.

2.1 – A crônica menor do sexo e de suas vexações se transpõe, imediatamente, na cerimoniosa história dos modos de produção: sua futilidade se dissipa.

2.2 – À história do sexo um patrocínio tão considerável não trazem consigo traços de antigos poderes: como se fosse preciso nada menos do que essas correlações valorizastes para que tal discurso pudesse ser proferido ou aceito.

2.3 – Se o sexo é reprimido, isto é, fadado à proibição, à inexistência e ao mutismo, o simples fato de falar dele e de sua repressão possui como que um ar de transgressão deliberada.

2.4 – Os primeiros demógrafos e os psiquiatras do século XIX, quando tinham que evoca-lo,  acreditavam que deviam pedir desculpas por reter a atenção de seus leitores em assuntos tão baixos e tão fúteis.

2.5 – A ideia de sexo reprimido, por tanto, não é somente objeto de teoria. A afirmação de uma sexualidade que nunca fora dominada com tanto rigor como na época da hipócrita burguesia negocista e contabilizadora é acompanhada pela ênfase de um discurso destinado a dizer a verdade sobre s sexo, a modificar sua economia no real, a subverter a lei que o rege, a mudar seu futuro.

2.6 – A questão que gostaria de colocar aqui não por que somos reprimidos mas, por que dizemos, com tanta paixão, tanto rancor contra nosso passado mais próximo, contra nosso presente e contra  nós mesmos,  que somos? Através de que hipérbole conseguimos  chegar a afirmar que o sexo é negado, a mostrar ostensivamente que o escondemos, a dizer que o calamos – e isso formulando-o através de palavras explicitas.


(2ª PARTE) A HIPÓTESE REPRESSIVA

3- Século XVII: seria o inicio de uma época de repressão própria das sociedades chamadas burguesas, e da qual talvez ainda não estivéssemos completamente liberados. Denominar o sexo seria, a partir desse momento, mais difícil e custo.

3.1 – Dir-se-ia mesmo que essas interdições temiam chama-lo pelo nome. Sem mesmo ter que dize-lo, o pudor moderno obteria que não se falasse dele, exclusivamente por intermédio de proibições que se completam mutualmente: mutismo que, de tanto calar-se, impõe o silencio. Censura.

3.2 - Em compensação, no nível dos discursos e de seus domínios, o fenômeno é quase inverso. Sobre o sexo, os discursos – discursos específicos, diferentes tanto pela forma como pelo objeto – não cessaram de proliferar: uma fermentação discursiva que se acelerou a partir do século XVIII.

3.3 – Mas o essencial é a multiplicação dos discursos sobre o sexo no próprio campo do exercício do poder: incitação institucional a falar do sexo e a falar dele cada vez mais; obstinação das instâncias do poder a ouvir falar e a faze-lo falar ele próprio sob a forma da articulação explicita e do detalhe infinitamente acumulado.

3.4 – Cobre-se, progressivamente, a nudez das questões que os manuais de confissão da Idade Média formulavam e grande número daquelas que eram correntes no século XVII.

3.5 – O sexo, segundo a nova pastoral, não deve mais ser mencionado sem prudência; mas seus aspectos, suas correlações, seus efeitos devem ser seguidos até às finas ramificações: uma sombra num devaneio, uma imagem expulsa com demasiada lentidão, uma cumplicidade mal afastada entre a mecânica do corpo e a complacência do espirito: tudo deve ser dito.

3.6 – Este projeto de uma “colocação do sexo em discurso” formara-se há muito tempo, numa tradição ascéticas e monásticas. O século XVII fez dele uma regra para todos. Dir-se-á que, de fato, só poderia se aplicar a uma elite mínima; a massa dos fiéis que só frequentavam a confissão raras vezes por ano escapava a prescrições tão complexas.



(3ª PARTE) A INPLANTAÇÃO PERVESA

4- O sexo dos cônjugues era sobrecarregado de regras e recomendações. A relação matrimonial era o foco mais intenso das constrições; era, sobretudo dela que se falava; mais do que qualquer outra tinha que ser confessada em detalhes. Estava sob estreita vigilância: se estivesse em falta, isto tinha que ser mostrado e demostrado diante de testemunha.

4.1 - Romper as leis do casamento ou procurar prazeres estranhos mereciam de qualquer modo, condenação. Na lista dos pecados graves, separados somente por sua importância, figuravam o estupro (relações fora do casamento), o adultério, o rapto, o incesto espiritual ou carnal, e também a sodomia ou a “caricia”.

4.2 – A “natureza”, em que às vezes se apoiavam, era ainda uma espécie de direito. Durante muito tempo os hermafroditas foram considerados criminosos, ou filhos do crime, já que sua disposição anatômica, seu próprio ser, embaraçava a lei que distinguia os sexos e prescrevia sua conjunção.

4.3 – Em relação às outras formas condenadas (e que o são cada vez menos) como o adultério ou o rapto, elas conquistam autonomia: casar com um parente próximo ou praticar a sodomia, seduzir uma religiosa ou praticar o sadismo, enganar a mulher ou violar cadáveres tornam-se coisas essencialmente diferentes.

4.4 – Trata-se, aparentemente, de linhas de um dispositivo de barragem; de fato, organizaram-se em torno da criança, linhas de penetração infinitas.

4.5 – Engajadas no corpo, transformadas em caráter profundo dos indivíduos, as extravagancias sexuais sobrepõem-se à tecnologia da saúde e do patológico. E, inversamente, a partir do momento em que passam a ser “coisa”.

4.6 – Prazer e Poder. Prazer em exercer um poder que questiona, fiscaliza, espreita, espia, investiga, apalpa, revela; e, por outro lado, prazer que se abrasa por ter que escapar a essa poder, fugir-lhe, enganá-lo ou travesti-lo. Poder que se deixa invadir pelo prazer que persegue e, diante dele, poder que se afirma no prazer de mostrar-se, de escandalizar-se ou de resistir. Captação e sedução; confronto e esforço recíprocos: pais e filhos, adulto e adolescente, educador e alunos, médicos e doente, e o psiquiatra com sua histérica e seus perversos, não cessaram de desempenhar esse papel desde o século XIX. Tais apelos, esquivas, incitações circulares não organizaram, em torno dos sexos e dos corpos, fronteiras a não serem ultrapassadas, e sim, as perpetuas espirais de Poder e Prazer.

4.7 – Prazer e Poder não se anuam; não se voltam um contra o outro; seguem-se, entrelaçam-se e se relançam. Encadeiam-se através de mecanismos complexos e positivos, de excitação e de incitação.