UNIVERSÍDADE FEDERAL DE GOIÁS
PÓS – GRADUAÇÃO ESPECIALIZAÇÃO STRITU SENSU
DISCIPLINA: GENERO E REPRESENTAÇÃO
PROF. DR. ALCILENE CAVALCANTE
ALUNO: JOÃO RAFAEL TATICO BORGES
Referência
FOUCAULT,
Michel. História da sexualidade vol. 1: a vontade do saber, Rio de
Janeiro. Edições Graal, 1988.
(1ª PARTE) NÓS VITORIANOS
1 – Parece que, por muito tempo teríamos
suportado um regime vitoriano e a ele nos sujeitamos ainda hoje.
1.1
– Diz-se que no inicio do século XVII
ainda vigorava certa franqueza. As práticas não provocavam o segredo; as
palavras eram ditas sem reticências excessivas e, as coisas, sem demasiado
disfarce; tinha-se com ilícito uma tolerante familiaridade.
1.2
– Gestos diretos, discursos sem
vergonha, transgressões visíveis, anatomias mostradas e facilmente misturadas,
crianças astutas vagabundo, sem incômodos nem escândalo, entre os risos dos
adultos: os corpos “pavoneavam”.
1.3
– A família conjugal a confisca. E
absorve-a, inteiramente, na sociedade da função de reproduzir. Em torno do
sexo, se cala. O casal legitimo e procriador, dita a lei.
1.4
– As crianças, por exemplo, sabe-se
muito bem não tem sexo: boa razão para interdita-lo, razão para proibi-las de
falarem dele, razão para fechar os olhos e tapar os ouvidos onde quer que
venham a manifestá-lo, razão para impor um silêncio geral e aplicado.
1.5
– O rendez-vouz
e a casa de saúde serão tais lugares de tolerância: a prostituta, o
cliente, o rufião, o psiquiatra e sua histérica – estes “outros vitorianos”,
diria Stephen Marcus – parece ter feito passar, de maneira sub reptica, o
prazer a que não se alude para a ordem das coisas que se contam; as palavras,
os gestos, então autorizados em surdina, trocam-se nesses lugares a preço alto.
1.6
– O modo fundamental de ligação entre
poder, saber e sexualidade, só se pode liberar a um preço considerável: seria necessário
nada menos que uma transgressão das leis, uma suspensão das interdições, uma
irrupção da palavra, uma restituição do prazer ao real, e toda uma nova
economia dos mecanismos do poder; pois a menor eclosão de verdade é
condicionada politicamente.
2- Dessa Forma,
denuncia-se o conformismo de Freud, as funções de normatização da psicanalise,
tanta timidez por trás dos arrebatamentos de Reich, todos os efeitos de
integração assegurados pela “ciência” do sexo ou praticas, pouco mais do que
suspeitas, da sexologia.
2.1 – A crônica
menor do sexo e de suas vexações se transpõe, imediatamente, na cerimoniosa história
dos modos de produção: sua futilidade se dissipa.
2.2 – À história
do sexo um patrocínio tão considerável não trazem consigo traços de antigos
poderes: como se fosse preciso nada menos do que essas correlações valorizastes
para que tal discurso pudesse ser proferido ou aceito.
2.3 – Se o sexo
é reprimido, isto é, fadado à proibição, à inexistência e ao mutismo, o simples
fato de falar dele e de sua repressão possui como que um ar de transgressão
deliberada.
2.4 – Os
primeiros demógrafos e os psiquiatras do século XIX, quando tinham que
evoca-lo, acreditavam que deviam pedir
desculpas por reter a atenção de seus leitores em assuntos tão baixos e tão
fúteis.
2.5 – A ideia de
sexo reprimido, por tanto, não é somente objeto de teoria. A afirmação de uma
sexualidade que nunca fora dominada com tanto rigor como na época da hipócrita
burguesia negocista e contabilizadora é acompanhada pela ênfase de um discurso
destinado a dizer a verdade sobre s sexo, a modificar sua economia no real, a
subverter a lei que o rege, a mudar seu futuro.
2.6 – A questão
que gostaria de colocar aqui não por que somos reprimidos mas, por que dizemos,
com tanta paixão, tanto rancor contra nosso passado mais próximo, contra nosso
presente e contra nós mesmos, que somos? Através de que hipérbole
conseguimos chegar a afirmar que o sexo
é negado, a mostrar ostensivamente que o escondemos, a dizer que o calamos – e
isso formulando-o através de palavras explicitas.
(2ª
PARTE) A HIPÓTESE REPRESSIVA
3- Século XVII:
seria o inicio de uma época de repressão própria das sociedades chamadas
burguesas, e da qual talvez ainda não estivéssemos completamente liberados.
Denominar o sexo seria, a partir desse momento, mais difícil e custo.
3.1 – Dir-se-ia
mesmo que essas interdições temiam chama-lo pelo nome. Sem mesmo ter que
dize-lo, o pudor moderno obteria que não se falasse dele, exclusivamente por
intermédio de proibições que se completam mutualmente: mutismo que, de tanto
calar-se, impõe o silencio. Censura.
3.2 - Em
compensação, no nível dos discursos e de seus domínios, o fenômeno é quase
inverso. Sobre o sexo, os discursos – discursos específicos, diferentes tanto
pela forma como pelo objeto – não cessaram de proliferar: uma fermentação
discursiva que se acelerou a partir do século XVIII.
3.3 – Mas o
essencial é a multiplicação dos discursos sobre o sexo no próprio campo do
exercício do poder: incitação institucional a falar do sexo e a falar dele cada
vez mais; obstinação das instâncias do poder a ouvir falar e a faze-lo falar
ele próprio sob a forma da articulação explicita e do detalhe infinitamente
acumulado.
3.4 – Cobre-se,
progressivamente, a nudez das questões que os manuais de confissão da Idade
Média formulavam e grande número daquelas que eram correntes no século XVII.
3.5 – O sexo,
segundo a nova pastoral, não deve mais ser mencionado sem prudência; mas seus
aspectos, suas correlações, seus efeitos devem ser seguidos até às finas
ramificações: uma sombra num devaneio, uma imagem expulsa com demasiada
lentidão, uma cumplicidade mal afastada entre a mecânica do corpo e a
complacência do espirito: tudo deve ser dito.
3.6 – Este
projeto de uma “colocação do sexo em discurso” formara-se há muito tempo, numa
tradição ascéticas e monásticas. O século XVII fez dele uma regra para todos.
Dir-se-á que, de fato, só poderia se aplicar a uma elite mínima; a massa dos
fiéis que só frequentavam a confissão raras vezes por ano escapava a
prescrições tão complexas.
(3ª
PARTE) A INPLANTAÇÃO PERVESA
4- O sexo dos
cônjugues era sobrecarregado de regras e recomendações. A relação matrimonial
era o foco mais intenso das constrições; era, sobretudo dela que se falava;
mais do que qualquer outra tinha que ser confessada em detalhes. Estava sob
estreita vigilância: se estivesse em falta, isto tinha que ser mostrado e
demostrado diante de testemunha.
4.1 - Romper as leis do casamento ou procurar
prazeres estranhos mereciam de qualquer modo, condenação. Na lista dos pecados
graves, separados somente por sua importância, figuravam o estupro (relações
fora do casamento), o adultério, o rapto, o incesto espiritual ou carnal, e
também a sodomia ou a “caricia”.
4.2 – A
“natureza”, em que às vezes se apoiavam, era ainda uma espécie de direito.
Durante muito tempo os hermafroditas foram considerados criminosos, ou filhos
do crime, já que sua disposição anatômica, seu próprio ser, embaraçava a lei
que distinguia os sexos e prescrevia sua conjunção.
4.3 – Em relação às outras formas condenadas (e
que o são cada vez menos) como o adultério ou o rapto, elas conquistam
autonomia: casar com um parente próximo ou praticar a sodomia, seduzir uma
religiosa ou praticar o sadismo, enganar a mulher ou violar cadáveres tornam-se
coisas essencialmente diferentes.
4.4 – Trata-se,
aparentemente, de linhas de um dispositivo de barragem; de fato, organizaram-se
em torno da criança, linhas de penetração
infinitas.
4.5 – Engajadas
no corpo, transformadas em caráter profundo dos indivíduos, as extravagancias sexuais
sobrepõem-se à tecnologia da saúde e do patológico. E, inversamente, a partir
do momento em que passam a ser “coisa”.
4.6 – Prazer e
Poder. Prazer em exercer um poder que questiona, fiscaliza, espreita, espia,
investiga, apalpa, revela; e, por outro lado, prazer que se abrasa por ter que
escapar a essa poder, fugir-lhe, enganá-lo ou travesti-lo. Poder que se deixa invadir
pelo prazer que persegue e, diante dele, poder que se afirma no prazer de
mostrar-se, de escandalizar-se ou de resistir. Captação e sedução; confronto e
esforço recíprocos: pais e filhos, adulto e adolescente, educador e alunos,
médicos e doente, e o psiquiatra com sua histérica e seus perversos, não
cessaram de desempenhar esse papel desde o século XIX. Tais apelos, esquivas,
incitações circulares não organizaram, em torno dos sexos e dos corpos,
fronteiras a não serem ultrapassadas, e sim, as perpetuas espirais de Poder e Prazer.
4.7 – Prazer e
Poder não se anuam; não se voltam um contra o outro; seguem-se, entrelaçam-se e
se relançam. Encadeiam-se através de mecanismos complexos e positivos, de
excitação e de incitação.