sábado, 13 de dezembro de 2014

UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOÍAS
PÓS-GRADUAÇÃO ESPECIALIZAÇÃO – LATU – SENSU
DISCIPLINA: MICRO – HISTÓRIA
PROF. DR. ALBERTO BAENA ZAPATERO
ALUNO JOÃO RAFAEL TATICO BORGES


TEMA DO MEU ARTIGO FINAL DE ESPECIALIZAÇÃO


Referências

FERNANDES, Adriana. Da Necessidade de Experiências Musicais: Sensibilidades e Sociabilidades perspectivas de pesquisa. Goiânia, Ed. UCG-2008.

FIUZA, Alexandre Fernandes. Reflexões sobre o trabalho com a canção na sala de aula. Ensino de Historia e Educação: Olhares em Convergência. Ponta Grossa: Editora UEPG, 2007.

DUARTE, Milton Joeri Fernandes. “A música e a construção do conhecimento histórico em aula”. São Paulo: FEUSP, 2011.

NAPOLITANO, Marcos. História & música – história cultural da música popular; Belo Horizonte: Autêntica, 2002.

AZAMBUJA, Luciano de. Jovens alunos e aprendizagem histórica: perspectivas a partir da canção popular. Tese de Doutorado Curitiba, 2013.          


CONCEITO DE MÚSICA NA HISTORIOGRAFIA DO ENSINO DE HISTÓRIA


Segundo Adriana Fernandes (2008), conceito de música deve se estender muito além das fronteiras da música ocidental, deixando para trás o eurocentrismo e tentando vislumbrar as pluralidades.
A definição do que seja música é um tema em debate já há algum tempo e vejo esta arena prenhe de frutos. Se o termo está sendo reelaborado e repensado constantemente por seus estudiosos isso mostra seu intrínseco caráter dinâmico – o que pode ser definido como música hoje não era necessariamente considerado no século XII, por exemplo. Música é um termo e um conceito mutável e existem sociedades que inclusive não possuem um termo especifico, mas sim equivalente ao que nós chamamos “música” para designar seus procedimentos sonoros, como por exemplo os índios Suya do Mato Grosso, estudado por Seeger (2004).
Candé (1983) nos dá um quadro desta transformação dos conceitos sobre o termo música. Segundo ele, para os Pitagóricos (Séc. V a. C) “a música é a ciência da ordem de todas as coisas”. (Candé, 1983); para o bispo, teólogo e filosofo Santo Agostinho (Séc. IV-V) “a música é a arte dos movimentos bem escutados”; para De Garlende (1270 – 1320), teórico musical francês dos Séc. XIII “música é a ciência do número em relação com sons”; para Leibniz (1647 – 1716), filósofo alemão do Séc. XII “música é um exercício secreto de aritmética e todo aquilo que ela se entrega,  ignora que manuseia números”. Logo em seguida Candé cita a definição de Rousseau (1712 – 1778) – filósofo, músico e compositor do século XVIII, que é a mais conhecida e difundida até hoje, especialmente nas instituições de ensino de música: “música é a arte de combinar sons de uma forma agradável ao ouvidos”. Depois de Rousseau, quem finalmente fala é um reconhecido músico e compositor, Beethoven (1770 – 1827): “música é uma revelação” mais alta do que a ciência e a filosofia “e Candé termina com as definições do filosofo Nietzche (1844 – 1900): ‘música é a imagem adequada da própria vontade” e Dukas (p. 10), compositor e professor de música francês (1865 – 1935): “música é, antes de tudo, uma arte de expressão séria e sublime”. (FERNANDES, 2008, pp. 82 – 83).
Como se pode ver, no quadro apontado por Candé podemos dividir estes conceitos em duas grandes categorias: aqueles que aliam música a matemática, e aqueles que aliam à expressividade. No entanto, aqueles que considero que estejam mais próximas desta categoria de expressividade têm em comum elementos de julgamento aliados à estética ocidental: “agradável”, “bem executados”, “revelação mais alta”, “seria” e “sublime” Fernandes (2008).
 Segundo a definição apontada Beethoven, que diz, mas como uma manifestação sonora humana pode ter como elemento intrínseco, e por tanto, formativo, a “agradabilidade” ou a “seriedade”? Estes julgamentos são feitos a posteriori pelo grupo e pelo próprio performer onde tal fenômeno se manifesta, visto que ele só passa a ser fenômeno depois de soar Fernandes (2008).
Portanto afirma Adriana (2008), o conceito de música hoje deve ser pensado de uma maneira bem mais ampla do que vem sendo difundido desde o século XVIII, pois o nosso conhecimento sobre as músicas e sobre as sociedades que as praticam tornam-se bem mais amplos e também, a explicação do fenômeno sonoro musical foi aprofundado por meio dos estudos de acústicas, da física, da antropologia, da sociologia, e outras áreas do conhecimento.
Já nas palavras de Napolitano (2002) Aquilo que hoje chamamos de música popular, em seu sentido amplo, e, particularmente, o que chamamos “canção” é um produto do século XX. Ao menos sua forma “fonográfica”, com seu padrão de 32 compassos, adaptada a um mercado urbano e intimamente ligada à busca de excitação corporal (música para dançar) e emocional (música para chorar, de dor ou alegria...). A música popular urbana reuniu uma série de elementos musicais, poéticos e performáticos da música erudita (o lied, a chançon, árias de ópera, bel canto, corais etc.), da música “folclórica” (danças dramáticas camponesas, narrativas orais, cantos de trabalho, jogos de linguagem e quadrinhas cognitivas e morais e do cancioneiro “interessado” do século XVIII e XIX (músicas religiosas ou revolucionárias, por exemplo). Sua gênese, no final do século XIX e início do século XX, está intimamente ligada à urbanização e ao surgimento das classes populares e médias urbanas. Esta nova estrutura socioeconômica produto do capitalismo monopolista, fez com que o interesse por um tipo de música, intimamente ligada à vida cultural e ao lazer urbanos, aumentasse. A música popular se consolidou na forma de uma peça instrumental ou cantada, disseminada por um suporte escrito-gravado (partitura/fonograma) ou como parte de espetáculo de apelo popular, como a opereta e o music-hall (e suas variáveis). A estas duas formas de consumo de música popular, que se firmaram entre 1890 e 1910 (CLARKE, 1995), não podemos esquecer uma função social básica que a música sempre desempenhou: a dança. Elemento catalisador de reuniões coletivas, voltadas para a dança, desde os empertigados salões vienenses ao mais popularesco “arrasta-pé”, passando pelos saraus familiares e pelos não tão familiares bordéis de cais-de-porto, a música popular alimentou (e foi alimentada) pelas danças de salão (NAPOLITANO, 2002, pp. 8 – 9).
Portanto, as relações entre música popular e história, Napolitano (2002), assim como a história da música popular no Ocidente, devem ser pensadas dentro da esfera musical como um todo, sem as velhas dicotomias “erudito” versus “popular”.
“A música e a construção do conhecimento em aula” tema pesquisado por Duarte (2011) em seu doutorado assim sendo Duarte observa alguns aspectos da utilização da linguagem musical que indicam como as representações históricas construídas pelos alunos e professores, incentivadas pela música, foram estudadas de maneira diagnóstica, por meio de uma pesquisa de inspiração etnográfica de observação e entrevistas. Procurou-se identificar as relações estabelecidas pelos sujeitos entre a realidade atual e o passado histórico, formando assim, a chamada consciência histórica.
Ainda segundo Duarte (2011) medida pela linguagem musical, essa consciência histórica possui uma forte carga efetiva elaborada pelos alunos e professores, transformando-se em memória pessoal e modelo de referência para a apreensão e a assimilação das novas audições, similares ou não às anteriores, revelando, assim, o que podemos chamar de consciência musical dos sujeitos envolvidos. Questões essenciais deverão ser respondidas por esta pesquisa, entre as quais: como se forma essa consciência musical? Qual a importância dela na formação da consciência histórica e na construção do conhecimento histórico de alunos e professores?
As experiências do passado representam, no relato dos entrevistados, mais que a matéria – prima bruta de histórias produzidas para fazer sentido. Trata-se de algo que já possui, em si, a propriedades de estar dotado de sentido, de modo que a constituição consciente de sentido da narrativa histórica se refere diretamente a ela e lhe dá continuação, engendrando vários ingredientes das operações conscientes do pensamento histórico.
O passado a ser articulado, como estado de coisas, com as orientações presentes no agir contemporâneo dos alunos e dos professores. Assim, as representações históricas dessas narrativas têm de ser pensadas como algo que empregue de determinados processos da vida pratica desses sujeitos que fazem parte dos processos de construção de sentido estabelecido pela consciência histórica (DUARTE, 2011, p. 209). 
A consciência histórica aponta Duarte (2011) é, antes de tudo, uma mediação entre os valores morais (orientadores de comportamento) e a ação dos alunos e dos professores, dentro e fora do ambiente escolar. A maior parte das representações dos entrevistados, durante minha pesquisa, demostrou a necessidade da consciência histórica para tratarem de valores morais e de argumentação moral (razão) e de como essa consciência pode ser estimulada pela linguagem musical.
Para Luciano de Azambuja (2013), o conceito de canção popular, já feitas a partir das referências de sua dissertação de mestrado, aponta que foi proposta uma determinada leitura histórica da canção, ou seja, uma leitura que leve em conta a especificidade, complexidade e unicidade do objeto canção, apropriado enquanto fonte histórica para o ensino e aprendizagem de história. Para costurar a articulação entre teoria e prática na disciplina de prática de ensino, nos referenciamos em Rüsen para delimitar as categorias norteadoras consciência histórica, narrativa histórica e fonte histórica. A partir da articulação dessas três categorias históricas é que passamos para o próximo passo do estudo piloto: o caminho prático metodológico. Finalizada a etapa de estudos teóricos, os alunos estagiários passaram a estabelecer os contatos com a escola e os professores que aceitaram participar da proposta de estágio. Os oito alunos selecionados para a investigação fizeram o seu estágio em uma das turmas do primeiro, segundo e terceiro anos do ensino médio, abarcando um total de 189 alunos, adolescentes com idade variando entre 14 e 17 anos Azambuja (2013).
Em sua tese de doutorado Azambuja afirma (2013) Foi orientado aos alunos estagiários que, no primeiro contato com a turma propusessem uma breve discussão sobre a importância da música na vida dos jovens, e encaminhassem uma investigação sobre os seus interesses e gostos musicais. Esse instrumento de investigação revelou os seguintes dados: a grande maioria dos jovens alunos e alunas tem como gênero musical de preferência o rock, gênero que se desdobra em diversos estilos, tipos e tendências tais como heavy metal, hardcore Pop rock, rock’n roll, e ainda outros como, alternativo, surf song e emo. Também fizeram referência aos gêneros pop, música clássica, música eletrônica, rap, reggae, hip hop, funk, e jazz em Percentuais decrescentes. Observou-se o predomínio da música que intitulamos música estrangeira de tradição anglo-americana. Interessante constatar que uma pequena amostra de alunos que se identifica com o gosto musical denominado por eles como eclético, parece estabelecer a ponte entre a música estrangeira, e a música brasileira, assim designada por nós, pois o seu gosto diversificado e aberto permite gostar “de tudo um pouco”. Apesar do predomínio da música estrangeira anglo-americana, a música popular brasileira possui um lugar significativo nos gostos musicais dos jovens alunos investigados. Destacam-se os seguintes subgêneros em ordem de incidência de citações: sertanejo, pagode, MPB, gospel, rock Brasil, pop Brasil, samba e outros como rap, reggae e funk; pode-se perceber que há uma série de gêneros estrangeiros que são abrasileirados e que constituem dicções que passam a fazer parte da música popular brasileira. Dentre os grupos, cantores e compositores estrangeiros se em ordem decrescente: Iron Maiden, Metallica, Green Day, Never Shout Never, Paramore, Beatles, Nirvana, Bom Jovi, Avril Lavigne, Ramones, Oasis, Panic At The Disco, dentre outros. Pode-se observar a predominância do gênero rock em suas diversas vertentes. Dentre os grupos, cantores e compositores brasileiros, destacam-se Legião Urbana, com uma grande incidência, CPM22, Detonautas, Charlie Brown Jr, Exaltasamba, Capital Inicial, Vítor e Léo, Strik, Cássia Eller, Titãs, Fernando e Sorocaba, Raul Seixas, Cazuza, Pitty, Chico Buarque e Caetano Veloso. Pode-se observar o predomínio do Rock Brasil, convivendo com o sertanejo e o pagode, e com muito pouca incidência da MPB (AZANBUJA, 2013, PP. 83 84).
Segundo Alexandre Felipe Fiuza (2007) não aponta exatamente o conceito de música o que ele nos mostra através de seu artigo “Reflexões Sobre o Trabalho com a Canção na Sala de Aula”. É que Vivemos numa sociedade em que sons e imagens invadem diariamente nosso cotidiano. Essa assertiva não tem nada de genial, e muito professores percebem nas últimas décadas o grande filão que é o trabalho em sala de aula com as linguagens: cinematográfica, teatral, literária, televisiva, e, é claro, musical. 
Porém, é possível perceber certo problema no trabalho com estas linguagens na escola na medida em que tais expressões são tomadas, pura e simplesmente, como instantâneos da realidade.  Nesse sentido há um empobrecimento e uma limitação desses objetos. Como aponta Fiuza (2007) é o que queremos contribuir por meio deste artigo se relaciona com o estudo das particularidades da linguagem musical.

Podemos vislumbrar aqui diz Fiuza (2007) dois pontos de discussão quanto à influência da canção em sala de aula. O primeiro refere-se ao fato de podermos pensar como trabalhar com a canção como objeto de estudo, como documentos nas diferentes disciplinas. O segundo diz respeito a qual seria a relação entre o fundo sonoro de uma canção e o processo de estudo propriamente dito, seja em sala de aula, seja na residência do aluno. Neste segundo ponto podemos apontas alguns dados obtidos pela pesquisa realizada por Chiappini e Citeli (1997), junto a 1 mil alunos da rede pública e privada da grande São Paulo, em 1993. Os pesquisadores perceberam que boa parte dos alunos fazia lições ou lia ouvindo rádio. Na 3ª serie série 9,43% deles faziam lições com o rádio ligado; já na 8ª série, eram 16,81%. Para escrever, na 3ª série 3,54%, enquanto na 8ª eram 6,16%. É bem provável que estes números tenham crescido nestes oito anos; afinal, os meios de comunicação continuam expandindo sua abrangência e seu monopólio. Tal contexto só foi um pouco abalado pela Internet, ainda elitizada pelos autos custos quando comparada ao rádio e à televisão. Contudo, não temos diz a dimensão da interferência exata da música no processo de estudo, o que abre um campo rico para pesquisas (FIUZA, 2007, pp. 64 – 65).