UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOÍAS
PÓS-GRADUAÇÃO ESPECIALIZAÇÃO – LATU – SENSU
DISCIPLINA: MICRO – HISTÓRIA
PROF. DR. ALBERTO BAENA ZAPATERO
ALUNO JOÃO RAFAEL TATICO BORGES
TEMA DO MEU ARTIGO
FINAL DE ESPECIALIZAÇÃO
Referências
FERNANDES,
Adriana. Da Necessidade de Experiências Musicais: Sensibilidades e
Sociabilidades perspectivas de pesquisa. Goiânia, Ed. UCG-2008.
FIUZA,
Alexandre Fernandes. Reflexões sobre o trabalho com a canção na
sala de aula. Ensino de Historia e Educação: Olhares em Convergência.
Ponta Grossa: Editora UEPG, 2007.
DUARTE,
Milton Joeri Fernandes. “A música e a construção do conhecimento
histórico em aula”. São Paulo: FEUSP, 2011.
NAPOLITANO,
Marcos. História & música – história cultural da música popular; Belo Horizonte: Autêntica, 2002.
AZAMBUJA,
Luciano de. Jovens alunos e aprendizagem histórica: perspectivas a partir da canção
popular. Tese de Doutorado
Curitiba, 2013.
CONCEITO DE
MÚSICA NA HISTORIOGRAFIA DO ENSINO DE HISTÓRIA
Segundo Adriana
Fernandes (2008), conceito de música deve se estender muito além das fronteiras
da música ocidental, deixando para trás o eurocentrismo e tentando vislumbrar
as pluralidades.
A definição do que seja
música é um tema em debate já há algum tempo e vejo esta arena prenhe de
frutos. Se o termo está sendo reelaborado e repensado constantemente por seus
estudiosos isso mostra seu intrínseco caráter dinâmico – o que pode ser
definido como música hoje não era necessariamente considerado no século XII,
por exemplo. Música é um termo e um conceito mutável e existem sociedades que
inclusive não possuem um termo especifico, mas sim equivalente ao que nós
chamamos “música” para designar seus procedimentos sonoros, como por exemplo os
índios Suya do Mato Grosso, estudado por Seeger (2004).
Candé (1983) nos dá um
quadro desta transformação dos conceitos sobre o termo música. Segundo ele,
para os Pitagóricos (Séc. V a. C) “a música é a ciência da ordem de todas as
coisas”. (Candé, 1983); para o bispo, teólogo e filosofo Santo Agostinho (Séc.
IV-V) “a música é a arte dos movimentos bem escutados”; para De Garlende (1270
– 1320), teórico musical francês dos Séc. XIII “música é a ciência do número em
relação com sons”; para Leibniz (1647 – 1716), filósofo alemão do Séc. XII
“música é um exercício secreto de aritmética e todo aquilo que ela se
entrega, ignora que manuseia números”.
Logo em seguida Candé cita a definição de Rousseau (1712 – 1778) – filósofo,
músico e compositor do século XVIII, que é a mais conhecida e difundida até
hoje, especialmente nas instituições de ensino de música: “música é a arte de
combinar sons de uma forma agradável ao ouvidos”. Depois de Rousseau, quem
finalmente fala é um reconhecido músico e compositor, Beethoven (1770 – 1827):
“música é uma revelação” mais alta do que a ciência e a filosofia “e Candé
termina com as definições do filosofo Nietzche (1844 – 1900): ‘música é a
imagem adequada da própria vontade” e Dukas (p. 10), compositor e professor de
música francês (1865 – 1935): “música é, antes de tudo, uma arte de expressão
séria e sublime”. (FERNANDES, 2008, pp. 82 – 83).
Como se pode ver, no
quadro apontado por Candé podemos dividir estes conceitos em duas grandes
categorias: aqueles que aliam música a matemática, e aqueles que aliam à
expressividade. No entanto, aqueles que considero que estejam mais próximas
desta categoria de expressividade têm em comum elementos de julgamento aliados
à estética ocidental: “agradável”, “bem executados”, “revelação mais alta”,
“seria” e “sublime” Fernandes (2008).
Segundo a definição apontada Beethoven, que
diz, mas como uma manifestação sonora humana pode ter como elemento intrínseco,
e por tanto, formativo, a “agradabilidade” ou a “seriedade”? Estes julgamentos
são feitos a posteriori pelo grupo e pelo próprio performer onde tal fenômeno
se manifesta, visto que ele só passa a ser fenômeno depois de soar Fernandes
(2008).
Portanto afirma Adriana
(2008), o conceito de música hoje deve ser pensado de uma maneira bem mais
ampla do que vem sendo difundido desde o século XVIII, pois o nosso
conhecimento sobre as músicas e sobre as sociedades que as praticam tornam-se
bem mais amplos e também, a explicação do fenômeno sonoro musical foi
aprofundado por meio dos estudos de acústicas, da física, da antropologia, da
sociologia, e outras áreas do conhecimento.
Já nas palavras de
Napolitano (2002) Aquilo que hoje chamamos de música popular, em seu sentido
amplo, e, particularmente, o que chamamos “canção” é um produto do século XX.
Ao menos sua forma “fonográfica”, com seu padrão de 32 compassos, adaptada a um
mercado urbano e intimamente ligada à busca de excitação corporal (música para
dançar) e emocional (música para chorar, de dor ou alegria...). A música
popular urbana reuniu uma série de elementos musicais, poéticos e performáticos
da música erudita (o lied, a chançon, árias de ópera, bel canto, corais etc.),
da música “folclórica” (danças dramáticas camponesas, narrativas orais, cantos
de trabalho, jogos de linguagem e quadrinhas cognitivas e morais e do
cancioneiro “interessado” do século XVIII e XIX (músicas religiosas ou
revolucionárias, por exemplo). Sua gênese, no final do século XIX e início do
século XX, está intimamente ligada à urbanização e ao surgimento das classes
populares e médias urbanas. Esta nova estrutura socioeconômica produto do
capitalismo monopolista, fez com que o interesse por um tipo de música,
intimamente ligada à vida cultural e ao lazer urbanos, aumentasse. A música
popular se consolidou na forma de uma peça instrumental ou cantada, disseminada
por um suporte escrito-gravado (partitura/fonograma) ou como parte de
espetáculo de apelo popular, como a opereta e o music-hall (e suas variáveis).
A estas duas formas de consumo de música popular, que se firmaram entre 1890 e
1910 (CLARKE, 1995), não podemos esquecer uma função social básica que a música
sempre desempenhou: a dança. Elemento catalisador de reuniões coletivas,
voltadas para a dança, desde os empertigados salões vienenses ao mais
popularesco “arrasta-pé”, passando pelos saraus familiares e pelos não tão
familiares bordéis de cais-de-porto, a música popular alimentou (e foi
alimentada) pelas danças de salão (NAPOLITANO, 2002, pp. 8 – 9).
Portanto, as relações
entre música popular e história, Napolitano (2002), assim como a história da
música popular no Ocidente, devem ser pensadas dentro da esfera musical como um
todo, sem as velhas dicotomias “erudito” versus “popular”.
“A
música e a construção do conhecimento em aula”
tema pesquisado por Duarte (2011) em seu doutorado assim sendo Duarte observa
alguns aspectos da utilização da linguagem musical que indicam como as
representações históricas construídas pelos alunos e professores, incentivadas
pela música, foram estudadas de maneira diagnóstica, por meio de uma pesquisa
de inspiração etnográfica de observação e entrevistas. Procurou-se identificar
as relações estabelecidas pelos sujeitos entre a realidade atual e o passado
histórico, formando assim, a chamada consciência
histórica.
Ainda segundo Duarte
(2011) medida pela linguagem musical, essa consciência histórica possui uma
forte carga efetiva elaborada pelos alunos e professores, transformando-se em
memória pessoal e modelo de referência para a apreensão e a assimilação das
novas audições, similares ou não às anteriores, revelando, assim, o que podemos
chamar de consciência musical dos sujeitos envolvidos. Questões essenciais
deverão ser respondidas por esta pesquisa, entre as quais: como se forma essa
consciência musical? Qual a importância dela na formação da consciência
histórica e na construção do conhecimento histórico de alunos e professores?
As experiências do
passado representam, no relato dos entrevistados, mais que a matéria – prima
bruta de histórias produzidas para fazer sentido. Trata-se de algo que já
possui, em si, a propriedades de estar dotado de sentido, de modo que a
constituição consciente de sentido da narrativa histórica se refere diretamente
a ela e lhe dá continuação, engendrando vários ingredientes das operações
conscientes do pensamento histórico.
O passado a ser
articulado, como estado de coisas, com as orientações presentes no agir
contemporâneo dos alunos e dos professores. Assim, as representações históricas
dessas narrativas têm de ser pensadas como algo que empregue de determinados
processos da vida pratica desses sujeitos que fazem parte dos processos de
construção de sentido estabelecido pela consciência
histórica (DUARTE, 2011, p. 209).
A consciência histórica
aponta Duarte (2011) é, antes de tudo, uma mediação entre os valores morais (orientadores de comportamento) e a ação
dos alunos e dos professores, dentro e fora do ambiente escolar. A maior parte
das representações dos entrevistados, durante minha pesquisa, demostrou a
necessidade da consciência histórica para tratarem de valores morais e de
argumentação moral (razão) e de como essa consciência pode ser estimulada pela
linguagem musical.
Para Luciano de
Azambuja (2013), o conceito de canção popular, já feitas a partir das
referências de sua dissertação de mestrado, aponta que foi proposta uma
determinada leitura histórica da canção, ou seja, uma leitura que leve em conta
a especificidade, complexidade e unicidade do objeto canção, apropriado
enquanto fonte histórica para o ensino e aprendizagem de história. Para
costurar a articulação entre teoria e prática na disciplina de prática de
ensino, nos referenciamos em Rüsen para delimitar as categorias norteadoras
consciência histórica, narrativa histórica e fonte histórica. A partir da articulação
dessas três categorias históricas é que passamos para o próximo passo do estudo
piloto: o caminho prático metodológico. Finalizada a etapa de estudos teóricos,
os alunos estagiários passaram a estabelecer os contatos com a escola e os
professores que aceitaram participar da proposta de estágio. Os oito alunos
selecionados para a investigação fizeram o seu estágio em uma das turmas do
primeiro, segundo e terceiro anos do ensino médio, abarcando um total de 189
alunos, adolescentes com idade variando entre 14 e 17 anos Azambuja (2013).
Em sua tese de
doutorado Azambuja afirma (2013) Foi orientado aos alunos estagiários que, no
primeiro contato com a turma propusessem uma breve discussão sobre a
importância da música na vida dos jovens, e encaminhassem uma investigação
sobre os seus interesses e gostos musicais. Esse instrumento de investigação
revelou os seguintes dados: a grande maioria dos jovens alunos e alunas tem
como gênero musical de preferência o rock, gênero que se desdobra em diversos
estilos, tipos e tendências tais como heavy metal, hardcore Pop rock, rock’n roll, e ainda outros como, alternativo, surf
song e emo. Também fizeram referência aos gêneros pop, música clássica, música
eletrônica, rap, reggae, hip hop, funk, e jazz em Percentuais decrescentes.
Observou-se o predomínio da música que intitulamos música estrangeira de
tradição anglo-americana. Interessante constatar que uma pequena amostra de
alunos que se identifica com o gosto musical denominado por eles como eclético,
parece estabelecer a ponte entre a música estrangeira, e a música brasileira,
assim designada por nós, pois o seu gosto diversificado e aberto permite gostar
“de tudo um pouco”. Apesar do predomínio da música estrangeira anglo-americana,
a música popular brasileira possui um lugar significativo nos gostos musicais
dos jovens alunos investigados. Destacam-se os seguintes subgêneros em ordem de
incidência de citações: sertanejo, pagode, MPB, gospel, rock Brasil, pop
Brasil, samba e outros como rap,
reggae e funk; pode-se perceber que
há uma série de gêneros estrangeiros que são abrasileirados e que constituem
dicções que passam a fazer parte da música popular brasileira. Dentre os
grupos, cantores e compositores estrangeiros se em ordem decrescente: Iron Maiden, Metallica, Green Day, Never
Shout Never, Paramore, Beatles, Nirvana, Bom Jovi, Avril Lavigne, Ramones,
Oasis, Panic At The Disco, dentre outros. Pode-se observar a predominância
do gênero rock em suas diversas vertentes. Dentre os grupos, cantores e compositores
brasileiros, destacam-se Legião Urbana,
com uma grande incidência, CPM22,
Detonautas, Charlie Brown Jr, Exaltasamba, Capital Inicial, Vítor e Léo, Strik,
Cássia Eller, Titãs, Fernando e Sorocaba, Raul Seixas, Cazuza, Pitty, Chico
Buarque e Caetano Veloso. Pode-se observar o predomínio do Rock Brasil,
convivendo com o sertanejo e o pagode, e com muito pouca incidência da MPB
(AZANBUJA, 2013, PP. 83 84).
Segundo Alexandre
Felipe Fiuza (2007) não aponta exatamente
o conceito de música o que ele nos mostra através de seu artigo “Reflexões
Sobre o Trabalho com a Canção na Sala de Aula”. É que Vivemos numa sociedade em
que sons e imagens invadem diariamente nosso cotidiano. Essa assertiva não tem
nada de genial, e muito professores percebem nas últimas décadas o grande filão
que é o trabalho em sala de aula com as linguagens: cinematográfica, teatral,
literária, televisiva, e, é claro, musical.
Porém, é possível
perceber certo problema no trabalho com estas linguagens na escola na medida em
que tais expressões são tomadas, pura e simplesmente, como instantâneos da
realidade. Nesse sentido há um
empobrecimento e uma limitação desses objetos. Como aponta Fiuza (2007) é o que
queremos contribuir por meio deste artigo se relaciona com o estudo das
particularidades da linguagem musical.
Podemos vislumbrar aqui
diz Fiuza (2007) dois pontos de discussão quanto à influência da canção em sala
de aula. O primeiro refere-se ao fato de podermos pensar como trabalhar com a
canção como objeto de estudo, como documentos nas diferentes disciplinas. O
segundo diz respeito a qual seria a relação entre o fundo sonoro de uma canção
e o processo de estudo propriamente dito, seja em sala de aula, seja na
residência do aluno. Neste segundo ponto podemos apontas alguns dados obtidos
pela pesquisa realizada por Chiappini e Citeli (1997), junto a 1 mil alunos da
rede pública e privada da grande São Paulo, em 1993. Os pesquisadores
perceberam que boa parte dos alunos fazia lições ou lia ouvindo rádio. Na 3ª
serie série 9,43% deles faziam lições com o rádio ligado; já na 8ª série, eram
16,81%. Para escrever, na 3ª série 3,54%, enquanto na 8ª eram 6,16%. É bem
provável que estes números tenham crescido nestes oito anos; afinal, os meios
de comunicação continuam expandindo sua abrangência e seu monopólio. Tal
contexto só foi um pouco abalado pela Internet, ainda elitizada pelos autos
custos quando comparada ao rádio e à televisão. Contudo, não temos diz a
dimensão da interferência exata da música no processo de estudo, o que abre um
campo rico para pesquisas (FIUZA, 2007, pp. 64 – 65).