UNIVERSÍDADE FEDERAL DE GOIÁS
PÓS – GRADUAÇÃO STRITU SENSU
DISCIPLINA: CULTURA, IMAGINÁRIO E PODER
PROF. DR. ADRIANA VIDOTTE
ALUNO: JOÃO RAFAEL TATICO BORGES
Referências
bibliográficas
CRIPPA,
G. O incrível exercito de brancaleone:
das aparições medievais ao anti-herói do nosso tempo. In: MACEDO, J. R.; MONGELLI,
M. (org.) A Idade Média no. São Paulo: Ateliê, 2009.
GUAVARD,
C. Violência. In LE GOFF, J.;
SCHIMITT, J. Dicionário temático do ocidente Medieval. Bauru/São Paulo: Edusc/
Imprensa Oficial do Estado, 2002.
SCHIMITT.
Jean-Claude. Deus. In: LE GOFF, J.;
SCHIMITT, J. Dicionário temático do ocidente Medieval. Bauru/ São Paulo:
Edusc//Imprensa Oficial do Estado, 2002.
BASCHET,
Jerome. Diabo. In: LE GOFF, J.;
SCHIMITT, J. Dicionário temático do Ocidente Medieval. Bauru/ São Paulo:
Edusc//Imprensa Oficial do Estado, 2002.
O INCRÍVEL EXÉRCITO
DE BRANCALEONE VIOLÊNCIA DEUS E O DIABO
Em 1966 diz: Crippa
(2009) em conjunto com roteiristas Age e Scarpelli, Mario Monicelli, “mestre”
da chamada Comédia all´Italiana,
“Comédia à Italiana”, realiza a magia de Brancaleone da Norcia – cavaleiro de
(des)ventura – tão solene em sua expressão de nobreza no conjunto perfeito de
lugares – comuns sobre a Idade Média, um sucesso tamanho de publico e de
critica que a expressão “Armada Brancaleone” foi integrada ao léxico para indicar um exército esfarrapado.
Nessa Idade Média
ameaçada pela Peste Negra, varrida pela onda de Cruzadas contra os infiéis, a
história do filme O Incrível Exército de
Brancaleone é protagonizada por Brancaleone, Herói picaresco que revela sua
comicidade quanto mais se reveste com a máscara da nobreza e de honra,
enfrentando grandes adversidades na tentativa de alcançar e tomar posse do
feudo de Aurocastro, na Apúlia, cujo diploma concedido pelo imperador foi
roubado de um “negro cavaleiro”, golpeado pelas costas e jogado em um rio.
Já nas primeiras cenas,
o cavaleiro negro e misterioso, homem poderoso e invencível, é derrubado pela
padrada do estilingue de um rapaz. “Davi e Golias” são a primeira citação de um
filme que atende aos estereótipos do publico italiano em 1966 Crippa (2009).
O
incrível Exército de Brancaleone é erudito e cheio de
citações, universal exercício de comicidade capaz de refletir o percurso da
Idade Média sonhada pelos letrados italianos, desde a própria Idade Média até o
século XX.
Assim sendo ressalta
Crippa (2009) o filme originou-se de dois elementos: três paginas de um dialago
entre camponeses, sobre mulheres, e uma película de escasso sucesso, Donne e Soldati (1955), de Luigi Malerba
e Antonio Marchi. A inspiração conduziu a uma obra sobre a Idade Média
trapaceira, feita de pobres e de ignorantes, de violência, miséria, sujeira,
frio; enfim, o oposto daquilo que costuma ser associado à tradição da Idade
Média nobre e portadora de valores positivos, identificada com Le Roman de la Rose, a saga do Rei Artur
e outras ficções.
A tradição toda via, é
colocada na película para que o grande público da Itália nacional – popular a
identifique como alvo de rios, enquanto referência cultural coletiva.
Trata-se de uma Idade
Média constituída pelos clichês de nobreza como nos mostra Crippa (2009) e
heroísmo, que tornam a película um conjunto de referências em que o espectador
olha e reconhece os elementos estratificadores de várias Idades Médias,
Inventadas a partir do que Eco chama “sonhos sobre a Idade Média”.
Conforme retraçado por
Jaques Le Goff: é a dimensão de um anseio, um verdadeiro “sonho” que há mais de
cinco séculos rodeia pensadores, Literatos, artistas e pessoas comuns, e que,
através do “filtro” Crippa (2009) da educação escolar da crescente burguesia
italiana do pós – guerra, o público reconhece, na película de Monicelli, como
estereótipo de uma Idade Média crível.
O incrível exército de
Brancaleone é, em primeiro lugar, um filme escrito e dirigido no contexto da
Itália do pós - guerra e do desenvolvimento econômico e social.
Brancaleone fala de uma
Idade Média como pretexto, diz Crippa (2009) em que não há um interesse historicamente
concreto, mais um “lugar’ do imaginário no qual vivem personagens
contemporâneas. Exemplo dessa tradição é o melodrama ou, ainda, poemas como La Gerusalemme Liberata, de Torquato tasso, escrito
durante a época da contra – reforma, o qual se torna outra referência na
constituição de lugares – comuns.
“O patrimônio cultural
oficial” comum à Itália esclerosada, aqulele conjunto que gera o reconhecimento
mais imediato da Idade Média por parte de um público na contraluz do qual
Monicelli constrói sua Idade Média materialista feita do exercício da História
Crippa (2009).
Ou a Idade Média de
Monicelli em seu Brancaleone: é uma Idade Média nostálgica, mas trata-se, fundamentalmente,
de uma Idade Média atéia. É nessa última tipologia que se insere o filme O incrível Exército de Brancaleone.
Guavard (2002) a Idade
Média, seria por excelência, o tempo da violência. Essa ideia está
profundamente enraizada em nosso imaginário, e é estreitamente associado às
imagens desvalorizantes que a historiografia veicula dos costumes medievais.
Desde a época carolíngia, a administração judiciária nas mãos dos condes e dos missi dominici, sob o pretexto de fazer
respeitar a ordem pública, se apraz em descrever os crimes horríveis cometidos
pelos ladrões.
Depois, no entender dos
clérigos que no século XI defendem o movimento da “Paz de Deus”, em todas as
partes do Ocidente só ocorre incêndio, sacrilégios, estupros, raptos de virgens
ou de mulheres casadas, roubos de gado e assaltos a mercadores, assassinos e
homicídios Guavard (2002).
No final da Idade
Média, os imperativos do Estado nascente enriquecem essa imagem com uma nota
coercitiva. Guavard (2002) Na França do século XIV, o movimento humanista
incita a purgar o “vasto refugio de ladrões” em que se transformara o reino da
França, e Nicolau de Clamagens não hesita a aconselhar o rei bem como seus
justiceiros a exercer o rigor da justiça para com os criminosos que o poluem.
Segundo nos mostra
Guavard (2002) A violência é o resultado de um encadeamento de fatos
necessários à manutenção da honra ou do retome, qualquer que seja a precedência
social dos indivíduos, sejam eles nobres ou não nobres. A violência não está
então ligada a um estado moral condenável em si; e o meio de provar a perfeição
de uma identidade.
Ainda Guavard (2002)
aponta que os termos “violência” e “violento” são de emprego raro e se referem
a um caso particular, o do estupro: faz se “violência da virgem”. A violência fundadora
é essa, excesso condenado por que desprezam fundamentais da reprodução. “cruel”
e “crueldade” que poderiam designar os efeitos mais nefastos da violência,
quase não são empregados num sentido moral e efetivo.
O tirano é aquele que
manifesta a mais extrema violência, Guavard (2002) indistintamente homens, e
mulheres e crianças. Sua antropofagia inibe as leis da reprodução e só pode
conduzir à morte total da humanidade, à anticivilização. O seu protótipo é
Herodes, porque ordena a execução de crianças inocentes e proteja a imagem do
lobo- tirano devorador de ovelhas. Com aqueles termos, fica-se na ação e na
condenação dos abusos da força.
De certo modo, a
nobreza toma consciência de si mesma confiscando a violência em seu proveito e
escapando à obediência que impõe o Estado ou a Igreja. A violência da nobreza.
O palácio das grandes
famílias nobres é uma zona de turbulência. Ali estão lado a lado jovens mal
posicionados e matadores de aluguel, esposas e prostitutas, filhos legítimos e
bastardos.
Para ser nobre é
preciso ser violento, e só o nobre pretende ter o direito de sê – ló; assim se
desenha uma sociedade dominada pela força. Guavard (2002) É necessário, entretanto,
nuançar esta adequação entre violência e nobreza, pois a linguagem política
fundada sobre a violência está longe de ser exclusiva. O homicídio reagrupa
todos os crimes de sangue é preciso esperar até o fim da Idade Média para que a
morte voluntária distinga-se dele pela premeditação e assuma então um sentido
próximo de assassínio, palavra que, no sentido atual, não aparece antes século
XVI.
Guavard (2002) A violência que pode conduzir à morte acha-se então
legitimada, o que prova que não existe ruptura entre os valores que defendem a
sociedade cometendo o crime e o poder que respeita o tato cometido absolvendo o
criminoso. Podia-se esperar um poder coercitivo, respondendo à violência pela
violência.
Assim sendo como nos mostra
Guavard (2002) que a violência seja quase exclusivamente masculina: a hora das
mulheres está na mão dos homens. E, nesse contexto, todos os homens são
abrangidos, jovens ou velhos, casados ou solteiros, clérigos ou leigos. Sua
violência tem por toda parte o mesmo perfil, o de uma luta para defender sua
honra e a de sua parentela.
O estupro é na maioria
das vezes fictícia: Guavard (2002) a mulher é arrastada para o esterco e
desfigurada.
Ela se choca, por
exemplo, com a interdição da mulher gravida, que nenhum homem deve tocar
inclusive o carrasco, ou ainda com a da criança, considerada sagrada.
Baschet (2002) sob seus
diversos nomes e com suas aparências multiformes, o Diabo – satã e seus
demônios – é seguramente uma das figuras mais importantes do universo do
ocidente medieval: encarnação do mal, oponente das forças celestes, tentador do
justo, inspirador dos ímpios e dos pecadores, verdugo dos condenados, ele é
onipresente e seu terrível poder se faz sentir em todos os aspectos da vida e
das representações medievais. “É o príncipe deste mundo” (João 12, 31), aqui “ele faz a festa”. Le Goff. O Diabo, e em
particular satã, potencia particularmente autônoma e que concentra o conjunto
das causalidades maléficas, é uma das criações mais interessantes e originais
do cristianismo. Baschet (2002) o antigo testamento em grande medida o ignora,
com exceção de textos tardios como o livro da sabedoria, que pela primeira vez interpreta a serpente tentadora do
Éden como uma figura do Diabo (Sabedoria
2, 24). Schimitt (2002) Deus compreende,
ou melhor, excede todo o campo concebível da experiência, tudo o que é
observável na natureza, incluindo os homens, tudo o que é pensável, a começar
pela própria ideia de Deus. Ele é todo poderoso, eterno, onipresente. Escapa ao
entendimento e as todas as tentativas de figuração. Tais são os dados
fundamentais da crença em Deus. Ao menos para o crente. Para o historiador,
mesmo que ele seja crente, o problema é outro: Deus é uma criação humana como
outras, o produto da história de uma época, um meio, uma tradição cultural,
sujeito a mudanças no espaço e no tempo.
A palavra latina deus, nome genérico de Deus na Idade
Média, não é se não a tradução do grego theos,
Schimitt (2002) que tem uma raiz indo - europeia muito antiga, deiwos, que quer dizer “o celeste”, em oposição à natureza
“terrestre” do homem (homo, de humus, “a terra”). Se o nome cristão “deus”
é de origem indo – europeia, uma grande parte das mais importantes
características de Deus vem da Bíblia e, através dela, do judaísmo antigo e das
culturas semíticas do Oriente Médio. Baschet (2002) se a leitura apócrifa
judaica abre aos demônios um espaço crescente, o novo testamento, por sua vez
marca uma etapa decisiva, enfatizando o conflito entre as forças celestes e
aquele que São Paulo chamou de “o deus deste mundo” (2 Corintios 4,4): lembrem –se especialmente as tentações de Cristo,
as Parábolas ou ainda os combates do Apocalipse.
Segundo aponta Schimitt
(2002) para os cristãos, Jesus realiza a promessa profética da vinda do Messias
e põe fim à espera. Não é um simples enviado de Deus: é o próprio Deus na
pessoa de seu filho.
O que o cristianismo
afirmou de radicalmente novo foi, de um lado, a representação complexa e
paradoxal de um Deus ao mesmo tempo uno por essência e trino pelas pessoas do
pai, do filho e do Espirito Santo; Schimitt (2002) e do outro lado à alteração de
toda ideia de história pelo fato de que Deus, no tempo, na pessoa de seu filho,
se fez homem. Em (Mateus 3, 16 – 17).
O próprio Jesus ordenará sem seguida a seus discípulos que fossem batizar todas
as nações “em nome do pai, do filho e do Espirito Santo” (Mateus 28, 19). De modo mais preciso, o prólogo do evangelho afirma
a distinção e a unidade do pai do filho: “no principio era o Verbo e o Verbo
estava com Deus e o Verbo era Deus” (João
1,1). Mais tarde São Paulo insistirá Schimitt (2002) sobre o papel do Espirito
como Liame entre pai e o filho (Epistola
aos Romanos 1,4 e Atos dos apóstolos 2,
34 – 34 – 36). É com fundamento nesses textos, que julgavam revelados, que a
Igreja e o primeiro imperador cristão Constantino fixaram o dogma trinitário
durante o primeiro Concilio de Niceia, em 325.
Entretanto Baschet
(2002) coloca que a doutrina cristã sustenta, ao contrario, que Deus é fonte e senhor de todas as coisas, enquanto
satã é uma criatura, um anjo decaído, submetido a Deus e que não pode agir sem
sua permissão. No entanto, uma forte tendência centrifuga uma tentação
politeísta? – trabalha os estratos mais profundos do cristianismo Medieval. As
incessantes advertências da doutrina não impediram o desenvolvimento de uma
faceta, sem duvida vivida de forma muito sensível, que dá ao Diabo um vasto
campo de autonomia.
Essa radical novidade
do cristianismo explica, durante toda a Idade Média, a ambiguidade da Igreja em
relação aos Judeus. Schimitt (2002) estes veneram a torá, que é o antigo Testamento dos cristãos. Mas segundo estes
últimos, os judeus não podem entende – lá corretamente porque ignoram o Novo
Testamento, que testemunham o cumprimento da promessa de Deus.
A história apoderou-se
desse Deus novo, transformando, no decorrer dos séculos, as crenças, os ritos,
as imagens, as instituições e o próprio dogma. O Deus do século XV (para não falar
daquele que os cristãos adotam atualmente) quase não se assemelha àquele dos
primeiros séculos ou ao do ano 1000.
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