sábado, 30 de agosto de 2014

UNIVERSÍDADE FERDERAL DE GOÍAS
ESPECIALIZAÇÃO EM HISTÓRIA CULTURAL – STRITU SENSU
MATERIA: HISTÓRIA CULTURAL
PROFº DR. ROBERTO ABDALA JR.
ALUNO: JOÃO RAFAEL TATICO BORGES


BIBLIOGRAFIA

VAINFAS, Ronaldo. História cultural e historiografia brasileira, 2005.

Conferência de abertura do Evento “História: Questões & Debates 25 Anos” – Auditório Homero de Barros, Edifício Dom Pedro I, Universidade Federal do Paraná, 16 de novembro de 2005.
Professor Titular de História Moderna da UFF. Pesquisador I-A do CNPq.

Resumo Em seu artigo Vainfas discorre toda uma visão panorâmica da historiografia brasileira onde  sugere uma reflexão da historiografia recente dos últimos vinte anos que por sua vez esta acoplada em programas de pós - graduação espalhados por todo o Brasil. Segundo Vainfas (2005) o artigo analisa os debates conceituais acerca das mentalidades francesas e a micro – historia italiana. Bem como a historiografia francesa das mentalidades, que passou a se definir entre nós a partir de fins da década de 1970. Ou na historiografia inspirada nas vertentes mais criticas da historia das mentalidades, a exemplo da historia cultural italiana de Carlos Ginzburg ou Giovani Levi, autores que praticamente fundaram a micro – historia. Ou ainda, na historiografia derivada de Roger Chartier, este é um tanto ligado este um tanto ligado à tradição dos Annales, embora critico a uma história social totalizante em favor das representações. Ou em fim, na historiografia ligada à historia sociocultural britânica, especialmente em E. P. Thompson, cuja trajetória pouco tem a ver com as vertentes acima, sendo da corrente marxista que procurou dimensionar a luta de classes e os movimentos sociais no campo da cultura. 

Segundo Vainfas (2005) é desta historiografia brasileira inspirada nestes modelos que vou tratar neste texto. Numa palavra: da historiografia brasileira que foi identificada como a “nova história” que se passou a praticar no Brasil nas últimas décadas do século XX. Nova história que, como expressão, aparecia muito mais no vocabulário de seus críticos do que era assumida pelos então jovens historiadores que passaram estudar as mentalidades, as sexualidades, as religiosidades ou as circularidades culturais. Voltarei a este ponto no devido tempo.
Mas, antes de prosseguir, é preciso reconhecer que a problemática relacionada à cultura em nossa historiografia, seja qual for o significado que se empreste ao termo cultura, há muito ocupa a nossa historiografia, para não falar dos memorialistas ou folcloristas do século XIX. Couto de Magalhães, Silvio Romero, Mello Moraes Filho, só para citar alguns, embora preocupados com as dificuldades do Brasil em erigir uma verdadeira civilização nos trópicos, além de desconfiados de nosso povo mestiço, deram contribuição inestimável para o resgate da poesia e festas populares de várias regiões (VAINFAS 2005).
No campo da historiografia propriamente dita, impossível não lembrar as pistas abertas pelo alemão Karl von Martius que, nos anos 1840, ganhou o concurso promovido pelo IHGB com seu texto sobre “Como escrever a história do Brasil”. É verdade que von Martius valorizou, como chave explicativa, a fusão das raças, e não de culturas, enfatizando muitíssimo a contribuição portuguesa e subestimando a africana. Mas este naturalista sem dúvida plantou semente mais tarde regada pelos historiadores, sociólogos e antropólogos, a começar por Gilberto Freyre.
Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias e muitos outros valorizaram este segundo elemento de nossa formação, como proposto por von Martius, empenhados em buscar nossas originalidades em face da herança portuguesa. O próprio Varnhagen, aliás, apesar de considerar que os índios do Brasil não tinham história e só eram passíveis de estudos etnológicos, dedicou capítulos preciosos, em termos de informação etnográfica, à cultura dos índios tupi na sua História Geral do Brasil (1854 - 1857).
Para o século XX, valho-me, para prosseguir nesta perspectiva genealógica, de um artigo de Laura de Mello e Souza intitulado “Aspectos da Historiografia da Cultura sobre o Brasil Colonial”, publicado em 1998, no qual a autora esboça uma periodização dos estudos sobre o que chama de história da cultura no Brasil.
Identifica uma primeira fase que define como a dos “ensaios formativos”, entre 1907 e 1936, inaugurada pelos Capítulos de História Colonial, de Capistrano de Abreu. Nela, Laura inclui, entre outros, o Retrato do Brasil, de Paulo Prado (1927), Vida e morte do bandeirante, de Alcântara Machado (1929), e, sobretudo, Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre (1933) e Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda (1936). Seria esta a etapa dos precursores.
Uma segunda fase seria a que a autora percebe como a de “deli- mitação do objeto história da cultura”, de 1945 a 1959, entre o livro clássico de Fernando de Azevedo, A cultura brasileira (1943) e Formação da literatura brasileira, de Antônio Cândido (1959). Mas é sobre a vasta obra de Sérgio Buarque de Holanda que nossa autora concentra o foco, desde Monções (1945), passando por Caminhos e fronteiras (1957) e terminando com Visão do Paraíso (1959).
A terceira fase a autora caracteriza como uma espécie de “transição entre a história da cultura e a história das mentalidades”, delimitada entre 1967 e 1986. É uma fase descrita de maneira mais dispersiva, realçando alguns autores ou livros que teriam dado os primeiros passos no rumo da história das mentalidades, tomada como meta desta história cultural em nossa historiografia. Nela aparecem alguns textos de Maria Beatriz Nizza da Silva, publicados na década de 1970, bem como o clássico de Anita Novinsky, Cristãos novos na Bahia (1972). Mas a ênfase recai na vasta obra de Evaldo Cabral de Mello, entre Olinda restaurada, de 1975, e o nome o sangue, de 1989.
A fase seguinte é sobre a historiografia contemporânea dedicada ao período colonial – a historiografia da década de 1990 – e pela simples periodização se pode perceber que a história da cultura no Brasil se consolidou, segundo Laura de Mello e Souza, enquanto história das mentalidades.
Carlo Ginzburg, ou “teia de significados”, de Clifford Geertz, para fazer o seu balanço e periodização. Autores e perspectivas muito diferentes é certo, mas que apontam para um conceito de história da cultura como história antropológica. E é mesmo neste território que a autora se move, ao pensar os esboços e avanços de uma história da cultura na historiografia sobre a Colônia, realçando a obra de Sérgio Buarque dos anos 1940-1950 ou a de Gilberto Freyre. Neste texto, não resta dúvida de que a história da cultura esboçada no início do século XX por Capistrano só se consolidaria décadas depois com a história das mentalidades praticada no Brasil. Uma história das mentalidades entendida principalmente como história antropológica.
Dos Capítulos de História Colonial, do mestre Capistrano, pouquíssima coisa se poderia extrair em termos de história da cultura, exceto o que está no último capítulo, “Três séculos depois”. Nele, de fato, Capistrano ao menos enuncia o que pretendia demonstrar com mais substância, mas não demonstrou, ao longo de seus capítulos: a configuração de um Brasil esgarçado, territorialmente fragmentado, regiões incomunicáveis, incipiência das forças de coesão, nenhum sentimento nacional, sequer “capi - taneal”.
Um rascunho de história da cultura material é o que vemos no derradeiro capítulo de Capistrano.
 Nisto reside à importância e posterior monumentalização da obra. Capistrano sem dúvida mudou o foco da historiografia sobre a Colônia. Mas, como livro de história da cultura, os Capítulos de Capistrano deixam muito a desejar.
Retrato do Brasil, de Paulo Prado, Laura viu como “obra híbrida de tradição e inovação” e houve quem visse o autor como “um militante precoce e assistemático da escola que mais tarde seria consagrada como história das mentalidades”3. A meu ver, nem precoce, nem assistemático.
Paulo Prado publicou seu Retrato em 1927 sem conhecer sequer os primeiros estudos de Febvre e Bloch, aliás, desconhecendo mesmo a historiografia da época. O que conhecia de história vinha-lhe principalmente da obra de Capistrano, de quem herdou os conhecimentos e o pessimismo com o Brasil. Não por acaso, o Retrato tem por subtítulo “Ensaio sobre a tristeza brasileira” e traz por epígrafe um trecho de certa carta de Capistrano onde este diz que o jaburu era a ave que simbolizava o Brasil.
A única inovação substantiva está na linguagem solta, quase tão libérrima como a que Freyre usaria pouco depois em Casa-Grande & Senzala.
Alcântara Machado, sim, no seu Vida e morte do bandeirante (1929), talvez no rastro das pistas que Capistrano abrira no último de seus Capítulos, lançou-se ao estudo do cotidiano dos moradores de São Paulo nos séculos XVII e XVIII. Livro mais descritivo que analítico, descortina, porém, a rudeza dos hábitos, a pobreza das moradias, utensílios e vestimentas, chega mesmo a vislumbrar os sentimentos destes pioneiros na fronteira de Piratininga. Explorou ao máximo os Inventários e Testamentos mandados publicar por Washington Luís, em 1920, e traçou panorama vasto sobre a vida humilde dos bandeirantes. Alcântara Machado superou a Raça de gigantes (1924), de Alfredo Ellis Jr., e reconstruiu a história dos bandeirantes longe da epopeia. O Sérgio Buarque de Caminhos e fronteiras seguiria esta pista, com mais densidade analítica. Mas nem um e nem outro dos livros citados preconiza, a rigor, qualquer tipo de história das mentalidades.
Já que menciono Sérgio Buarque, talvez o maior historiador brasileiro, é evidente que seu livro pioneiro, Raízes do Brasil, trata da cultura brasileira. De uma cultura brasileira herdada da cultura ibérica – que o autor por sinal deplora, nela vendo a matriz de nosso arcaísmo.
Mas se trata de um livro de ensaios que, como bem observou Antônio Cândido, pensou o Brasil a partir dos tipos ideais weberianos, conceitual aplicado à nossa realidade a partir da erudição do próprio autor e de suas leituras da historiografia alemã, inclusive Leopold von Ranke. Pouca influência dos historiadores franceses dos começos dos Annales se faz presente na obra. Nenhum deles aparece citado.
Se isto vale para o Raízes, vale também para obra muito posterior de Sérgio Buarque, o tão citado – mas ainda pouco lido – Visão do Paraíso. Por se debruçar sobre os mitos edênicos veiculados na crônica dos descobrimentos e colonização – que nosso autor percebe muito mais nos castelhanos que nos portugueses –, não faltou quem visse no livro uma espécie de história das mentalidades avant la lettre.
. Importância visível no recurso a uma tópica capaz de articular a pesquisa de textos literários com a investigação propriamente histórica, razão pela qual Sérgio Buarque definiu literalmente seu livro como a “biografia de uma idéia”. Sérgio Buarque manteve diálogos importantes, neste livro, com alguns historiadores do século XIX, a exemplo de Jacob Burckhardt, autor do clássico A civilização da Renascença Italiana, obra de 1864, de quem, no entanto, discordou num ponto central, a saber, quanto à existência de uma fratura radical entre a Idade Média e o Renascimento.
Um pouco mais precursor, se é que tal expressão faz sentido, foi o Gilberto Freyre de Casa-Grande & Senzala. Precursor na linguagem, precursor no tratamento de temas-tabu, como as sexualidades, tratadas sem constrangimento e até com sofreguidão; precursor no rastreamento das religiosidades cotidianas, dos usos e costumes da casa-grande, da culinária, das afetividades.

Precursor ao enfrentar as barreiras da raciologia cientificista que dominava o pensamento brasileiro desde o século XIX e propor a fusão de brancos, índios e negros também no plano das culturas em contato. Influência da antropologia de Frans Boas, de quem fora aluno nos anos 1920. Freyre realmente quase antecipa, neste passo, a problemática das mestiçagens culturais, hoje tão em voga na pesquisa histórica das sociedades coloniais6. Mas o livro de Gilberto Freyre propôs-se, antes de tudo, a repensar a formação histórica do Brasil em perspectiva a mais ampla possível, nela enxergando a família patriarcal e a escravidão como elementos formadores. A casa-grande, metáfora do Brasil, é o cenário onde se opera a miscigenação a um só tempo racial e cultural, por ele positivada, numa convergência de contributos que não elimina, porém, as hierarquias e violências da escravidão – ao contrário do que deste livro diriam os críticos nas décadas de 1960-1970 (VAINFAS, 2005, P. 224).

Estamos, assim, para seguir as referências de Laura no artigo que mencionei, diante de autores fundamentais para se compreender a historiografia brasileira que dedicou alguma atenção aos aspectos culturais de nossa formação histórica. Nenhum deles, porém, exceto por alguns temas ou subtemas, pode ser considerado precursor da historiografia que foi a campo na década de 1980. A perspectiva era distinta, porque estes clássicos, também de tempos e contextos variados, queriam pensar o Brasil – passado, presente, futuro – e não fazer pesquisa monográfica de teses. As matrizes teóricas eram também distintas, seja quanto à historiografia utilizada, seja quanto à perspectiva antropológica. De modo que dizer que tanto Freyre como os historiadores atuais da cultura praticam uma história antropológica é dizer muito pouco.
De todo modo, estes nossos autores clássicos ficaram algum tempo esquecidos no meado do século passado. Do mesmo modo, a historiografia das mentalidades, e sua sucedânea, a história cultural, custou a aparecer em nosso meio.
As grandes referências eram, antes de tudo, o Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr. (1942), um pouco o Nelson Werneck Sodré de Formação Histórica do Brasil (1967), outro tanto o Formação Econômica do Brasil (1959), de Celso Furtado, que se não chegava a ser marxista, ofereceu interpretação de nossa história econômica que se afinava, em muitos pontos, com a dos marxistas.
Estas obras de síntese compunham o pano de fundo de diversos estudos e discussões, atravessando os anos 1960 e alcançando a década seguinte. O fundamental era, então, fazer uma história que buscasse as raízes socioeconômicas de nosso atraso, subdesenvolvimento ou dependência do imperialismo, em especial o norte-americano. Uma história engajada, portanto, uma história militante. Uma síntese importante do final da década de 1950, Os donos do poder, de Raimundo Faoro, reeditada e atualizada em 1974, não alcançaria o mesmo prestígio nos cursos e livros de história, pelo seu corte weberiano, embora fosse bastante crítica à continuidade do estamento burocrático na história do Brasil.
Nos anos 1970, tempo de regime militar consolidado, tempo em que os cursos de história das universidades públicas faziam às vezes de oposição consentida ao regime e implantavam, silenciosamente, seus cursos de pós-graduação, as referências e preocupações se mesclaram a certas novidades, sem contudo abrirem a pesquisa às correntes que revolucionavam a historiografia europeia, sobretudo na França. Entre nós, pelo menos duas questões passaram a predominar nos debates e pesquisas.
Em segundo lugar, nos estudos sobre o período colonial, que conheço melhor, os anos 1970 assistiram ao debate em torno da escravidão e do sistema colonial. Foi o tempo em que se pôs em xeque, entre nós, o modelo de sistema colonial de Caio Prado Jr. – o “sentido da colonização” – divulgado por Fernando Novais no Estrutura e dinâmica do Antigo Sistema Colonial – o célebre Caderno 17 do CEBRAP (1975) – que depois seria transformado no capítulo segundo de sua tese de doutorado. Um modelo que, para resumir, priorizava o sentido externo da acumulação gerada pela exploração colonial e pensava a escravidão como determinada pela lógica do sistema mercantil.
Refiro-me à teoria dos modos de produção coloniais, difundida no Brasil por Ciro Cardoso em diversos artigos, no início dos anos 1970, e aplicada ao Brasil, com forte viés stalinista, por Jacob Gorender, no seu Escravismo colonial, de 1978. Um modelo que buscava pensar a originalidade de nossas estruturas coloniais em função da lógica interna dos modos de produção aqui gerados, percebendo na escravidão dinâmicas que não se reduziam do capital comercial, embora dele dependessem. Também aqui uma história engajada, ao menos teoricamente, na medida em que fortemente ancorada no marxismo, e num marxismo economicista.
Mas vale frisar, como curiosidade, uma diferença importante entre os defensores do modo de produção colonial. Enquanto Gorender era antigo militante de esquerda, e seu modelo de escravismo colonial era parte de uma autocrítica em relação aos paradigmas oficiais de seu partido, como a tese feudal de Sodré, Ciro Cardoso sempre fez questão de apresentar suas teorias como alternativas não contaminadas pelas estratégias partidárias de esquerda, e, portanto, mais credíveis teoricamente.
O modo de produção colonial de Ciro Cardoso, segundo ele mesmo, não se deixava influenciar pelos que julgavam necessário encontrar uma etapa feudal em nossa história, para justificar uma revolução burguesa que antecederia a socialista; nem se deixava impressionar pela tese de que o Brasil fora capitalista desde as origens, sendo caso de se apressar, como em Cuba, a revolução socialista.
Artigo importante, embora evasivo, de Le Goff, intitulado “As mentalidades: uma história ambígua”. Mas, a despeito do relativo desdém que este e outros textos “teóricos” sobre as mentalidades revelavam pela discussão conceitual de fôlego, preferindo ancorar-se em metáforas e jogos retóricos – e pagaram caro pela desfaçatez –, a produção deste campo de estudos foi vigorosíssima desde fins da década de 1960. Mas não encontrou receptividade no Brasil, senão nos anos 1980 e, mesmo assim, no final da década. (VAINFAS, 2005, P. 228).

Quando trato de história das mentalidades, refiro-me a diversos livros produzidos entre os anos 1960 e 1980 que pouco a pouco vieram a ser traduzidos e divulgados no Brasil, a começar pelo Magistrados e feiticeiros na França do século XVII, de Robert Mandrou, publicado em 1968 com grande êxito, traduzido pela Perspectiva em 1979, mas só realmente valorizado entre nós no meado da década de 1980.
A lista de livros franceses das mentalidades posteriormente traduzida no Brasil seria extensíssima, na verdade, de modo que só darei alguns exemplos: os livros de Ariès sobre infância ou morte; os de Jean-Louis Flandrin sobre sexualidades na Idade Média e Época Moderna; os de Georges Duby sobre imaginário do feudalismo, condição feminina e mentalidades medievais; os de Le Goff, como O nascimento do Purgatório; o de Le Roy Ladurie sobre Montaillou, original de 1975; os de Jean Delumeau sobre religiosidades e mentalidades, a exemplo de O medo no Ocidente, original de 1978, tradução brasileira de 1989.
A queda do muro de Berlim, em 1989, completa o quadro, libertando a pesquisa histórica brasileira dos patrulhamentos esquerdistas. O arejamento do ambiente universitário, enfim livre dos compromissos políticos de combate ao regime de exceção e, de quebra, livre das patrulhas ideológicas, teve peso decisivo nesta inflexão historiográfica.
Ciro Cardoso, por sua vez, lançou sua crítica mais frontal em texto teórico publicado em Ensaios racionalistas, de 1988, dedicado a uma reflexão mais geral sobre o declínio de uma historiografia totalizante, presente tanto no marxismo como na história social dos Annales até 1969. Decadência dos Annales, recuo no marxismo, assim começa o texto – queixoso – que evolui para a condenação total da chamada “nova história”, de cuja novidade, aliás, duvida.
O trabalho de Mary del Priore, Ao sul do corpo, livro sobre a condição feminina e maternidade no Brasil colonial, primeiro livro de sua vastíssima produção neste campo.
A tese ainda inédita de Lana Lage, A confissão pelo avesso, pesquisa sobre os padres que seduziam mulheres (e homens) nos confessionários coloniais. O livro de Plínio Gomes, Um herege vai ao paraíso, pesquisa sobre o processo de mais de mil fólios contra Pedro e Rattes Henequim, homem que defendeu, de forma temerária, que o paraíso ficava em Minas, que o fruto do pecado original era a banana; que a Virgem era andrógina; que os anjos tinham sexo. Morreu queimado no século XVIII.
Se fosse aqui inventariar e comentar as obras de pesquisa original sobre o período colonial que mesclaram, na própria concepção, as mentalidades à moda francesa, a história cultural de Ginzburg, e nossa tradição historiográfica de Sérgio Buarque e Gilberto Freyre, esta conferência não teria fim.
Para romper o tédio e voltar à polêmica, relembro que toda esta produção foi alvo de muitas críticas nos seus inícios. E um dos motes mais frequentados neste imbróglio foi à micro - história. O curioso é que tanto os que acusavam os “novos historiadores” de praticá-la, como os próprios “novos historiadores” não sabiam ao certo do que falavam ao se referir à micro - história.

De micro - história mesmo são poucos os exemplos em nossa historiografia. Para citar apenas dois da historiografia colonial, citaria os já citados livros de Luiz Mott sobre a Rosa Egipcíaca e o de Plínio Gomes sobre Henequim. Mas o mais incrível é que, embora a micro - história tenha tardado a se difundir entre nós, e ainda hoje esteja só nos primeiros passos, ela ocupou o centro ou a periferia de vários debates na década de 1980, justamente quando começaram a se difundir no Brasil, primeiro, as traduções de obras francesas, italianas e inglesas no campo da história cultural – ou das mentalidades, no caso francês. E, segundo, porque dela se falava quando apenas começavam a se difundir as próprias pesquisas neste campo, a partir das teses de pós-graduação, sobretudo em história colonial.

Nenhum comentário:

Postar um comentário