UNIVERSÍDADE FERDERAL DE GOÍAS
ESPECIALIZAÇÃO EM HISTÓRIA CULTURAL – STRITU SENSU
MATERIA: HISTÓRIA CULTURAL
PROFº DR. ROBERTO ABDALA JR.
ALUNO: JOÃO RAFAEL TATICO BORGES
BIBLIOGRAFIA
VAINFAS,
Ronaldo. História cultural e
historiografia brasileira, 2005.
Conferência
de abertura do Evento “História: Questões & Debates 25 Anos” – Auditório
Homero de Barros, Edifício Dom Pedro I, Universidade Federal do Paraná, 16 de
novembro de 2005.
Professor
Titular de História Moderna da UFF. Pesquisador I-A do CNPq.
Resumo – Em seu artigo Vainfas discorre toda uma visão
panorâmica da historiografia brasileira onde sugere uma reflexão da historiografia recente
dos últimos vinte anos que por sua vez esta acoplada em programas de pós -
graduação espalhados por todo o Brasil. Segundo Vainfas (2005) o artigo analisa
os debates conceituais acerca das mentalidades francesas e a micro – historia
italiana. Bem como a historiografia francesa das mentalidades, que passou a se
definir entre nós a partir de fins da década de 1970. Ou na historiografia
inspirada nas vertentes mais criticas da historia das mentalidades, a exemplo
da historia cultural italiana de Carlos Ginzburg ou Giovani Levi, autores que
praticamente fundaram a micro – historia. Ou ainda, na historiografia derivada
de Roger Chartier, este é um tanto ligado este um tanto ligado à tradição dos
Annales, embora critico a uma história social totalizante em favor das
representações. Ou em fim, na historiografia ligada à historia sociocultural
britânica, especialmente em E. P. Thompson, cuja trajetória pouco tem a ver com
as vertentes acima, sendo da corrente marxista que procurou dimensionar a luta
de classes e os movimentos sociais no campo da cultura.
Segundo Vainfas (2005)
é desta historiografia brasileira inspirada nestes modelos que vou tratar neste
texto. Numa palavra: da historiografia brasileira que foi identificada como a
“nova história” que se passou a praticar no Brasil nas últimas décadas do
século XX. Nova história que, como expressão, aparecia muito mais no
vocabulário de seus críticos do que era assumida pelos então jovens
historiadores que passaram estudar as mentalidades, as sexualidades, as
religiosidades ou as circularidades culturais. Voltarei a este ponto no devido
tempo.
Mas, antes de
prosseguir, é preciso reconhecer que a problemática relacionada à cultura em
nossa historiografia, seja qual for o significado que se empreste ao termo
cultura, há muito ocupa a nossa historiografia, para não falar dos memorialistas
ou folcloristas do século XIX. Couto de Magalhães, Silvio Romero, Mello Moraes
Filho, só para citar alguns, embora preocupados com as dificuldades do Brasil
em erigir uma verdadeira civilização nos trópicos, além de desconfiados de
nosso povo mestiço, deram contribuição inestimável para o resgate da poesia e
festas populares de várias regiões (VAINFAS 2005).
No campo da
historiografia propriamente dita, impossível não lembrar as pistas abertas pelo
alemão Karl von Martius que, nos anos 1840, ganhou o concurso promovido pelo
IHGB com seu texto sobre “Como escrever a
história do Brasil”. É verdade que von Martius valorizou, como chave
explicativa, a fusão das raças, e não de culturas, enfatizando muitíssimo a
contribuição portuguesa e subestimando a africana. Mas este naturalista sem
dúvida plantou semente mais tarde regada pelos historiadores, sociólogos e
antropólogos, a começar por Gilberto Freyre.
Gonçalves de Magalhães,
Gonçalves Dias e muitos outros valorizaram este segundo elemento de nossa
formação, como proposto por von Martius, empenhados em buscar nossas
originalidades em face da herança portuguesa. O próprio Varnhagen, aliás,
apesar de considerar que os índios do Brasil não tinham história e só eram
passíveis de estudos etnológicos, dedicou capítulos preciosos, em termos de
informação etnográfica, à cultura dos índios tupi na sua História Geral do Brasil (1854 - 1857).
Para o século XX,
valho-me, para prosseguir nesta perspectiva genealógica, de um artigo de Laura
de Mello e Souza intitulado “Aspectos da Historiografia
da Cultura sobre o Brasil Colonial”, publicado em 1998, no qual a autora
esboça uma periodização dos estudos sobre o que chama de história da cultura no
Brasil.
Identifica uma primeira
fase que define como a dos “ensaios formativos”, entre 1907 e 1936, inaugurada
pelos Capítulos de História Colonial,
de Capistrano de Abreu. Nela, Laura inclui, entre outros, o Retrato do Brasil,
de Paulo Prado (1927), Vida e morte do
bandeirante, de Alcântara Machado (1929), e, sobretudo, Casa-Grande & Senzala, de Gilberto
Freyre (1933) e Raízes do Brasil, de
Sérgio Buarque de Holanda (1936). Seria esta a etapa dos precursores.
Uma segunda fase seria
a que a autora percebe como a de “deli-
mitação do objeto história da cultura”, de 1945 a 1959, entre o livro clássico de Fernando de Azevedo, A
cultura brasileira (1943) e Formação
da literatura brasileira, de Antônio Cândido (1959). Mas é sobre a vasta
obra de Sérgio Buarque de Holanda que nossa autora concentra o foco, desde
Monções (1945), passando por Caminhos e
fronteiras (1957) e terminando com Visão
do Paraíso (1959).
A terceira fase a
autora caracteriza como uma espécie de “transição entre a história da cultura e
a história das mentalidades”, delimitada entre 1967 e 1986. É uma fase descrita
de maneira mais dispersiva, realçando alguns autores ou livros que teriam dado
os primeiros passos no rumo da história das mentalidades, tomada como meta
desta história cultural em nossa historiografia. Nela aparecem alguns textos de
Maria Beatriz Nizza da Silva, publicados na década de 1970, bem como o clássico
de Anita Novinsky, Cristãos novos na
Bahia (1972). Mas a ênfase recai na vasta obra de Evaldo Cabral de Mello, entre Olinda restaurada, de 1975, e o nome o sangue, de 1989.
A fase seguinte é sobre
a historiografia contemporânea dedicada ao período colonial – a historiografia
da década de 1990 – e pela simples periodização se pode perceber que a história da cultura no Brasil se
consolidou, segundo Laura de Mello e Souza, enquanto
história das mentalidades.
Carlo Ginzburg, ou
“teia de significados”, de Clifford Geertz, para fazer o seu balanço e
periodização. Autores e perspectivas muito diferentes é certo, mas que apontam
para um conceito de história da cultura
como história antropológica. E é mesmo neste território que a autora se
move, ao pensar os esboços e avanços de uma história da cultura na
historiografia sobre a Colônia, realçando a obra de Sérgio Buarque dos anos
1940-1950 ou a de Gilberto Freyre. Neste texto, não resta dúvida de que a
história da cultura esboçada no início do século XX por Capistrano só se
consolidaria décadas depois com a história das mentalidades praticada no
Brasil. Uma história das mentalidades entendida principalmente como história
antropológica.
Dos Capítulos de História Colonial, do
mestre Capistrano, pouquíssima coisa se poderia extrair em termos de história
da cultura, exceto o que está no último capítulo, “Três séculos depois”. Nele,
de fato, Capistrano ao menos enuncia o que pretendia demonstrar com mais
substância, mas não demonstrou, ao longo de seus capítulos: a configuração de
um Brasil esgarçado, territorialmente fragmentado, regiões incomunicáveis,
incipiência das forças de coesão, nenhum sentimento nacional, sequer “capi -
taneal”.
Um rascunho de história da cultura material é o que
vemos no derradeiro capítulo de Capistrano.
Nisto reside à importância e posterior
monumentalização da obra. Capistrano sem dúvida mudou o foco da historiografia
sobre a Colônia. Mas, como livro de história da cultura, os Capítulos de Capistrano deixam muito a desejar.
Retrato
do Brasil, de Paulo Prado, Laura viu como “obra híbrida de
tradição e inovação” e houve quem visse o autor como “um militante precoce e
assistemático da escola que mais tarde seria consagrada como história das
mentalidades”3. A meu ver, nem precoce, nem assistemático.
Paulo Prado publicou
seu Retrato em 1927 sem conhecer
sequer os primeiros estudos de Febvre e Bloch, aliás, desconhecendo mesmo a
historiografia da época. O que conhecia de história vinha-lhe principalmente da
obra de Capistrano, de quem herdou os conhecimentos e o pessimismo com o
Brasil. Não por acaso, o Retrato tem
por subtítulo “Ensaio sobre a tristeza brasileira” e traz por epígrafe um
trecho de certa carta de Capistrano onde este diz que o jaburu era a ave que
simbolizava o Brasil.
A única inovação
substantiva está na linguagem solta, quase tão libérrima como a que Freyre
usaria pouco depois em Casa-Grande &
Senzala.
Alcântara Machado, sim,
no seu Vida e morte do bandeirante
(1929), talvez no rastro das pistas que Capistrano abrira no último de seus
Capítulos, lançou-se ao estudo do cotidiano dos moradores de São Paulo nos
séculos XVII e XVIII. Livro mais descritivo que analítico, descortina, porém, a
rudeza dos hábitos, a pobreza das moradias, utensílios e vestimentas, chega
mesmo a vislumbrar os sentimentos destes pioneiros na fronteira de Piratininga.
Explorou ao máximo os Inventários e
Testamentos mandados publicar por Washington Luís, em 1920, e traçou
panorama vasto sobre a vida humilde dos bandeirantes. Alcântara Machado superou
a Raça de gigantes (1924), de Alfredo Ellis Jr., e reconstruiu a história dos
bandeirantes longe da epopeia. O Sérgio Buarque de Caminhos e fronteiras seguiria esta pista, com mais densidade analítica.
Mas nem um e nem outro dos livros citados preconiza, a rigor, qualquer tipo de
história das mentalidades.
Já que menciono Sérgio
Buarque, talvez o maior historiador brasileiro, é evidente que seu livro
pioneiro, Raízes do Brasil, trata da cultura
brasileira. De uma cultura brasileira herdada da cultura ibérica – que o autor
por sinal deplora, nela vendo a matriz de nosso arcaísmo.
Mas se trata de um
livro de ensaios que, como bem observou Antônio Cândido, pensou o Brasil a
partir dos tipos ideais weberianos, conceitual aplicado à nossa realidade a
partir da erudição do próprio autor e de suas leituras da historiografia alemã,
inclusive Leopold von Ranke. Pouca influência dos historiadores franceses dos
começos dos Annales se faz presente
na obra. Nenhum deles aparece citado.
Se isto vale para o Raízes, vale também para obra muito
posterior de Sérgio Buarque, o tão citado – mas ainda pouco lido – Visão do Paraíso. Por se debruçar sobre
os mitos edênicos veiculados na crônica dos descobrimentos e colonização – que
nosso autor percebe muito mais nos castelhanos que nos portugueses –, não
faltou quem visse no livro uma espécie de história das mentalidades avant la lettre.
. Importância visível
no recurso a uma tópica capaz de articular a pesquisa de textos literários com
a investigação propriamente histórica, razão pela qual Sérgio Buarque definiu
literalmente seu livro como a “biografia de uma idéia”. Sérgio Buarque manteve
diálogos importantes, neste livro, com alguns historiadores do século XIX, a
exemplo de Jacob Burckhardt, autor do clássico A civilização da Renascença
Italiana, obra de 1864, de quem, no entanto, discordou num ponto central, a
saber, quanto à existência de uma fratura radical entre a Idade Média e o
Renascimento.
Um pouco mais precursor,
se é que tal expressão faz sentido, foi o Gilberto Freyre de Casa-Grande & Senzala. Precursor na
linguagem, precursor no tratamento de temas-tabu, como as sexualidades,
tratadas sem constrangimento e até com sofreguidão; precursor no rastreamento
das religiosidades cotidianas, dos usos e costumes da casa-grande, da
culinária, das afetividades.
Precursor ao
enfrentar as barreiras da raciologia cientificista que dominava o pensamento
brasileiro desde o século XIX e propor a fusão de brancos, índios e negros
também no plano das culturas em contato. Influência da antropologia de Frans
Boas, de quem fora aluno nos anos 1920. Freyre realmente quase antecipa, neste
passo, a problemática das mestiçagens culturais, hoje tão em voga na pesquisa
histórica das sociedades coloniais6. Mas o livro de Gilberto Freyre propôs-se,
antes de tudo, a repensar a formação histórica do Brasil em perspectiva a mais
ampla possível, nela enxergando a família patriarcal e a escravidão como
elementos formadores. A casa-grande, metáfora
do Brasil, é o cenário onde se opera a miscigenação a um só tempo racial e
cultural, por ele positivada, numa convergência de contributos que não elimina,
porém, as hierarquias e violências da escravidão – ao contrário do que deste
livro diriam os críticos nas décadas de 1960-1970 (VAINFAS, 2005, P. 224).
Estamos, assim, para
seguir as referências de Laura no artigo que mencionei, diante de autores
fundamentais para se compreender a historiografia brasileira que dedicou alguma
atenção aos aspectos culturais de nossa formação histórica. Nenhum deles,
porém, exceto por alguns temas ou subtemas, pode ser considerado precursor da
historiografia que foi a campo na década de 1980. A perspectiva era distinta,
porque estes clássicos, também de tempos e contextos variados, queriam pensar o
Brasil – passado, presente, futuro – e não fazer pesquisa monográfica de teses.
As matrizes teóricas eram também distintas, seja quanto à historiografia
utilizada, seja quanto à perspectiva antropológica. De modo que dizer que tanto
Freyre como os historiadores atuais da cultura praticam uma história
antropológica é dizer muito pouco.
De todo modo, estes
nossos autores clássicos ficaram algum tempo esquecidos no meado do século
passado. Do mesmo modo, a historiografia das mentalidades, e sua sucedânea, a
história cultural, custou a aparecer em nosso meio.
As grandes referências
eram, antes de tudo, o Formação do Brasil
Contemporâneo, de Caio Prado Jr. (1942), um pouco o Nelson Werneck Sodré de
Formação Histórica do Brasil (1967),
outro tanto o Formação Econômica do
Brasil (1959), de Celso Furtado, que se não chegava a ser marxista,
ofereceu interpretação de nossa história econômica que se afinava, em muitos
pontos, com a dos marxistas.
Estas obras de síntese
compunham o pano de fundo de diversos estudos e discussões, atravessando os
anos 1960 e alcançando a década seguinte. O fundamental era, então, fazer uma
história que buscasse as raízes socioeconômicas de nosso atraso,
subdesenvolvimento ou dependência do imperialismo, em especial o
norte-americano. Uma história engajada, portanto, uma história militante. Uma
síntese importante do final da década de 1950, Os donos do poder, de Raimundo Faoro, reeditada e atualizada em
1974, não alcançaria o mesmo prestígio nos cursos e livros de história, pelo
seu corte weberiano, embora fosse bastante crítica à continuidade do estamento
burocrático na história do Brasil.
Nos anos 1970, tempo de
regime militar consolidado, tempo em que os cursos de história das universidades
públicas faziam às vezes de oposição consentida ao regime e implantavam,
silenciosamente, seus cursos de pós-graduação, as referências e preocupações se
mesclaram a certas novidades, sem contudo abrirem a pesquisa às correntes que
revolucionavam a historiografia europeia, sobretudo na França. Entre nós, pelo
menos duas questões passaram a predominar nos debates e pesquisas.
Em segundo lugar, nos
estudos sobre o período colonial, que conheço melhor, os anos 1970 assistiram
ao debate em torno da escravidão e do sistema colonial. Foi o tempo em que se
pôs em xeque, entre nós, o modelo de sistema colonial de Caio Prado Jr. – o
“sentido da colonização” – divulgado por Fernando Novais no Estrutura e dinâmica do Antigo Sistema
Colonial – o célebre Caderno 17 do CEBRAP (1975) – que depois seria
transformado no capítulo segundo de sua tese de doutorado. Um modelo que, para
resumir, priorizava o sentido externo da acumulação gerada pela exploração
colonial e pensava a escravidão como determinada pela lógica do sistema
mercantil.
Refiro-me à teoria dos modos de produção coloniais, difundida
no Brasil por Ciro Cardoso em diversos artigos, no início dos anos 1970, e
aplicada ao Brasil, com forte viés stalinista, por Jacob Gorender, no seu Escravismo colonial, de 1978. Um modelo
que buscava pensar a originalidade de nossas estruturas coloniais em função da
lógica interna dos modos de produção aqui gerados, percebendo na escravidão
dinâmicas que não se reduziam do capital comercial, embora dele dependessem.
Também aqui uma história engajada, ao menos teoricamente, na medida em que
fortemente ancorada no marxismo, e num marxismo economicista.
Mas vale frisar, como
curiosidade, uma diferença importante entre os defensores do modo de produção colonial. Enquanto
Gorender era antigo militante de esquerda, e seu modelo de escravismo colonial
era parte de uma autocrítica em relação aos paradigmas oficiais de seu partido,
como a tese feudal de Sodré, Ciro Cardoso sempre fez questão de apresentar suas
teorias como alternativas não contaminadas pelas estratégias partidárias de
esquerda, e, portanto, mais credíveis teoricamente.
O
modo de produção colonial de Ciro Cardoso, segundo ele
mesmo, não se deixava influenciar pelos que julgavam necessário encontrar uma
etapa feudal em nossa história, para justificar uma revolução burguesa que
antecederia a socialista; nem se deixava impressionar pela tese de que o Brasil
fora capitalista desde as origens, sendo caso de se apressar, como em Cuba, a
revolução socialista.
Artigo
importante, embora evasivo, de Le Goff, intitulado “As mentalidades: uma
história ambígua”. Mas, a despeito do relativo desdém que este e outros textos
“teóricos” sobre as mentalidades revelavam pela discussão conceitual de fôlego,
preferindo ancorar-se em metáforas e jogos retóricos – e pagaram caro pela
desfaçatez –, a produção deste campo de estudos foi vigorosíssima desde fins da
década de 1960. Mas não encontrou receptividade no Brasil, senão nos anos 1980
e, mesmo assim, no final da década. (VAINFAS, 2005, P. 228).
Quando trato de história
das mentalidades, refiro-me a diversos livros produzidos entre os anos 1960 e
1980 que pouco a pouco vieram a ser traduzidos e divulgados no Brasil, a
começar pelo Magistrados e feiticeiros na
França do século XVII, de Robert Mandrou, publicado em 1968 com grande
êxito, traduzido pela Perspectiva em 1979, mas só realmente valorizado entre
nós no meado da década de 1980.
A lista de livros
franceses das mentalidades posteriormente traduzida no Brasil seria
extensíssima, na verdade, de modo que só darei alguns exemplos: os livros de
Ariès sobre infância ou morte; os de
Jean-Louis Flandrin sobre sexualidades na
Idade Média e Época Moderna; os de Georges Duby sobre imaginário do feudalismo, condição feminina e mentalidades
medievais; os de Le Goff, como O nascimento
do Purgatório; o de Le Roy Ladurie sobre Montaillou, original de 1975; os
de Jean Delumeau sobre religiosidades e
mentalidades, a exemplo de O medo no
Ocidente, original de 1978, tradução brasileira de 1989.
A queda do muro de
Berlim, em 1989, completa o quadro, libertando a pesquisa histórica brasileira
dos patrulhamentos esquerdistas. O arejamento do ambiente universitário, enfim
livre dos compromissos políticos de combate ao regime de exceção e, de quebra,
livre das patrulhas ideológicas, teve peso decisivo nesta inflexão
historiográfica.
Ciro Cardoso, por sua
vez, lançou sua crítica mais frontal em texto teórico publicado em Ensaios racionalistas, de 1988, dedicado
a uma reflexão mais geral sobre o declínio de uma historiografia totalizante,
presente tanto no marxismo como na história social dos Annales até 1969. Decadência dos Annales, recuo no marxismo, assim
começa o texto – queixoso – que evolui para a condenação total da chamada “nova
história”, de cuja novidade, aliás, duvida.
O
trabalho de Mary del Priore, Ao sul do
corpo, livro sobre a condição feminina e maternidade no Brasil colonial,
primeiro livro de sua vastíssima produção neste campo.
A tese ainda inédita de
Lana Lage, A confissão pelo avesso,
pesquisa sobre os padres que seduziam mulheres (e homens) nos confessionários
coloniais. O livro de Plínio Gomes, Um
herege vai ao paraíso, pesquisa sobre o processo de mais de mil fólios
contra Pedro e Rattes Henequim, homem que defendeu, de forma temerária, que o
paraíso ficava em Minas, que o fruto do pecado original era a banana; que a
Virgem era andrógina; que os anjos tinham sexo. Morreu queimado no século
XVIII.
Se fosse aqui
inventariar e comentar as obras de pesquisa original sobre o período colonial
que mesclaram, na própria concepção, as mentalidades à moda francesa, a
história cultural de Ginzburg, e nossa tradição historiográfica de Sérgio
Buarque e Gilberto Freyre, esta conferência não teria fim.
Para romper o tédio e
voltar à polêmica, relembro que toda esta produção foi alvo de muitas críticas
nos seus inícios. E um dos motes mais frequentados neste imbróglio foi à micro
- história. O curioso é que tanto os que acusavam os “novos historiadores” de
praticá-la, como os próprios “novos historiadores” não sabiam ao certo do que
falavam ao se referir à micro - história.
De micro - história
mesmo são poucos os exemplos em nossa historiografia. Para citar apenas dois da
historiografia colonial, citaria os já citados livros de Luiz Mott sobre a Rosa
Egipcíaca e o de Plínio Gomes sobre Henequim. Mas o mais incrível é que, embora
a micro - história tenha tardado a se difundir entre nós, e ainda hoje esteja
só nos primeiros passos, ela ocupou o centro ou a periferia de vários debates
na década de 1980, justamente quando começaram a se difundir no Brasil,
primeiro, as traduções de obras francesas, italianas e inglesas no campo da
história cultural – ou das mentalidades, no caso francês. E, segundo, porque
dela se falava quando apenas começavam a se difundir as próprias pesquisas neste
campo, a partir das teses de pós-graduação, sobretudo em história colonial.
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